Grande Reportagem, ano XV, 3ª série, 19 de Junho de 2004
Com pompa e circunstância, o Governo do estado da Austrália ocidental anunciou, recentemente, a descoberta dos destroços de um navio português, que há perto de dois séculos naufragou na costa ocidental da Austrália. Um achado importante e muito perseguido: o Correio da Azia conseguiu iludir os arqueólogos do Western Australian Maritime Museum durante década e meia, e esta pequena galera é o primeiro navio português encontrado nestas paragens. Sabe-se também agora que a bordo seguiam mais de cem mil patacas, cerca de 2,5 toneladas de prata em reales espanhóis cunhados no México, mas cujo destino permanece uma incógnita. Primeiros passos de uma investigação intercontinental, que decorre entre Fremantle e Lisboa, com muitas perguntas ainda sem resposta
Texto: Mónica Bello
Fotografia: Patrick Baker*
A noite descera. E à semelhança de todas as outras noites, o comandante postara vigias à proa. Com vento de Oeste, a galera de bandeira portuguesa sulcava as águas a uma média de cinco a seis milhas por hora. No dia anterior tinham «observado o Sol ao meio dia, ao termo médio das tres latitudes Sul vinte e quatro graos Dezasseis minutos» e avistado pela primeira vez um bocado de terra naquela costa ocidental da Nova Hollanda, identificando-a na carta como a «ilha Barren». E horas antes, pelas sete da tarde, vigias e oficiais tinham apontado uma «Barreira branca alta» na costa, a oito ou nove milhas de distância. João Joaquim de Freitas, capitão tenente do Departamento de Marinha de Goa e comandante nesta viagem directa de Lisboa a Macau do Correio da Azia, tinha de imediato mandado orçar, aproximando a proa do seu navio ao vento e apontando-a a Nornoroeste, de modo a manter a distância julgada segura da costa. À meia-noite não se vislumbrava já qualquer sinal de terra. Meia hora depois, seguindo novas ordens do comandante, o piloto ajustava o rumo ao Norte. Algures para estibordo ficava a Nova Hollanda, isso era certo. Tão certo como a carta náutica recheada de erros que seguia a bordo, os recifes traiçoeiros que espreitavam bem perto e, provavelmente, as fortes mas invisíveis correntes que se preparavam para ditar a desgraça.
Três anos mais tarde, em 1819, a Imprensa Régia mandaria imprimir no Rio de Janeiro uma obra do hidrógrafo-mor da Marinha Real portuguesa. E no seu Roteiro Sobre a Navegação do Mar da China, Joaquim Bento da Fonseca não faria qualquer cerimónia em atribuir a desdita do Correio da Azia também à ignorância do seu comandante. «Se os oficiais [daquele navio] tivessem lido mais atentamente o resultado das viagens das corvetas de guerra [francesas] Naturaliste, Geographe e Investigateur [1800-1803] (...), teriam ficado com um conhecimento mais rigoroso da Nova Hollanda, ou seja, teriam deduzido que a costa noroeste daquele país (...) está rodeada de recifes e que em nenhum local foi erguido qualquer observatório (...)». Mas naquela primeira hora do dia 26 de Novembro de 1816, os homens que seguiam a bordo do Correio da Azia mantinham-se atentos, como mandavam as regras de navegação em águas pouco conhecidas, e longe de imaginarem o que a sorte lhes reservava.
Tudo se precipitou numa escassa hora. E fazendo jus ao ditado que diz que uma desgraça nunca vem só. O protesto do naufrágio que João Joaquim de Freitas entregou dois meses mais tarde em Macau, ao Tabelião Público de Notas «por sua Magestade Fedelisma, que Deos Guarde», refere que pela uma da manhã terá «pegado um fogo na bitácula», a caixa que envolve a bússola, «o qual durou por hum quarto de hora, não podendo [o piloto] governar por a Agulha o caminho determinado». O problema ter-se-à resolvido rapidamente, «pela Luz de huma Lanterna», fazendo regressar o navio ao rumo certo. Mas quinze minutos depois, antes mesmo dos vigias de plantão darem pelo perigo, o escriturário e o contra-mestre de bordo davam o alarme na tolda. Tinham avistado «huma arrebentação por Sotavento da Proa por Estibordo», que é, como quem diz, em linguagem de leigo, qualquer coisa como «fundo baixo ou rochas mesmo ali em frente sobre a direita».
O comandante não perde tempo. Dá ordens para orçar «todo a bolina», tentando navegar a todo o pano contra o vento que sopra de Oeste e afastar-se da turbulência ameaçadora, e a âncora é deixada a postos, como último recurso. A manobra, no entanto, parece não dar resultado – as ondas continuam a rebentar bem à vista, à proa do navio. João Joaquim de Freitas manda virar de bordo, mas as correntes contrárias são já, provavelmente, demasiado fortes. Antes mesmo dos homens terem tempo para cumprir as ordens, o navio bate duas vezes na rocha. Por momentos, parece até que a pequena galera se vai conseguir livrar do perigo: o navio continua a navegar, prepara-se a viragem de bordo, arreiam-se todas as velas e não se avista já qualquer turbulência. Mas é bonança de pouca dura. O casco estremece quando embate mais uma vez, depois outra, a última, que o deixa sem leme. «Imediatamente atravessou o navio ao mar», adornando sobre bombordo e enchendo-se de água com o mar a rebentar com violência sobre o convés. Joaquim de Freitas manda cortar as «enxárcias de estibordo dos mastaréus», o conjunto de cabos que sustenta os mastros e dá acesso às vergas, para evitar que o navio vire e, ao mesmo tempo, facilitar o lançamento da lancha de salvamento ao mar.
O Correio da Azia está perdido. Na noite escura, «não se podendo afastar para o largo pelo motivo das muitas pedras que aparecião fora da agua», os naúfragos passam as horas seguintes, «até ao romper do dia», naquela lancha, presa ao que sobra dos mastros, conseguindo salvar «três barris de bolacha e couza de três almudes de agua». E pouco mais de 6300 patacas da verdadeira fortuna que seguia a bordo: 106500 patacas, nome que os portugueses davam às moedas espanholas de 8 reales, em prata, cunhadas no México, a moeda forte da época. Qualquer coisa como 2,5 toneladas de metal precioso. Correspondentes, hoje, a mais de 2,6 milhões de euros.
Durante alguns anos, poucos, o naufrágio do Correio da Azia seria lembrado em alguns roteiros naúticos como exemplo dos perigos para a navegação nos mares do Oriente. Mas documentos oficiais e roteiros acabariam por desaparecer sob o pó dos arquivos. Seria preciso esperar mais de 170 anos para que se voltasse a falar da infortunada galera portuguesa. Até 1988, quando Graeme Henderson, director do Western Australian Maritime Museum (WAMM, Museu Marítimo da Austrália Ocidental), sediado em Fremantle, e autor de uma série de livros sobre naufrágios ao longo da costa ocidental australiana, teve conhecimento que se ia realizar um leilão de obras antigas, entre as quais constava uma cópia de um relato de um piloto português, Luís António da Silva Beltrão, «Primeiro Piloto de Carta Patente», publicado na Índia inglesa em 1818, e contendo «Instruções para navegar nas proximidades da costa Noroeste da Nova Hollanda no brigue Emillia». Por um feliz acaso, as notas de Beltrão não podiam encontrar melhor dono: a biblioteca do WAMM, museu classificado pelo governo australiano como «centro de excelência» da arqueologia marítima, e reconhecido pelos seus pares como um dos melhores do mundo. Aquelas instruções seriam também a primeira pista para encontrar o esquecido Correio da Azia, já que, quase dois séculos antes, aquele brigue, como relatava o piloto, tinha saído de Macau com a missão de tentar recuperar o que pudesse – a prata, obviamente – da sinistrada galera.
Para Jeremy Green, arqueólogo e director do Departamento de Arqueologia Marítima do WAMM, encontrar o navio português passou a fazer parte da sua lista de objectivos. Há quarenta anos que os investigadores do museu marítimo vão somando registos históricos e vestígios de naufrágios nesta costa ocidental australiana, contabilizando hoje a respectiva carta arqueológica cerca de 1400 ocorrências. De todos estes navios acidentados, no entanto, apenas 163 estão localizados – americanos, holandeses, ingleses, franceses. Nem uma única embarcação portuguesa, sabendo-se, ainda por cima, que os portugueses demandavam já estas paragens desde os anos de 1500. Encontrar o Correio da Azia, naufragado em 1816, não iria certamente obrigar a reescrever a História dos primeiros contactos europeus com a Austrália – que as provas encontradas até ao momento atribuem aos holandeses –, mas constituiria mais uma importante peça para a reconstituição de uma época de ouro nas trocas comerciais entre o Velho Continente e o Império do Meio, altura em que a portuguesa cidade de Macau era ainda a única porta de entrada na China.
Em meados dos anos de 1990, novo documento regressa à luz do dia. Do Arquivo Histórico-Ultramarino de Lisboa segue para Fremantle uma cópia do protesto de naufrágio do Correio (citado acima), elaborado pelo seu comandante João Joaquim de Freitas. Traduzido em 1995 pelo professor Steve Lubkemann, da universidade norte-americana de Brown, na altura a fazer investigação no WAMM, seria este relato a lançar Jeremy Green e a sua equipa para o terreno. Ou ao mar, mais exactamente.
Desde logo, os arqueólogos apercebem-se de discrepâncias entre as coordenadas referidas pelo capitão-tenente português, velocidades e distâncias percorridas. É provavelmente por essa razão que as primeiras duas tentativas para localizar os destroços do Correio, em 1997 e 1998, não surtem efeito. Não se perde o trabalho, apesar de tudo, já que a primeira busca acaba por revelar um outro naufrágio, o da barca austríaca Stefano, que em 1876 se afundou junto ao Cabo Noroeste carregada de carvão, quando seguia de Cardiff, País de Gales, para Hong Kong.
O que restava da galera portuguesa descansava, sem dúvida, por aquelas mesmas águas. As buscas continuaram, utilizando técnicas de sondagem manuais e remotas. Mas o insucesso começava a pesar. “Estávamos quase a desistir”, como recordava há algumas semanas Jeremy Green, em entrevista à estação ABC (Australian Broadcasting Corporation). Até que, em 2003, os arqueólogos recebem uma generosa oferta de uma companhia multinacional holandesa, a Fugro Survey, especializada em prospecção para as indústrias do petróleo, gás natural, mineira e de construção, e que se associa ao projecto, prontificando-se a efectuar uma prospecção aérea do local. O sofisiticado magnetómetro da Fugro assinalaria quatro possíveis locais sobre o recife de Ningaloo, ao largo de Point Cloates, algumas milhas a Sul do Cabo Noroeste. E cedo de manhã, a 29 de Abril deste ano, a equipa dirigida por Jeremy Green estava no local e a postos – constituída pelos arqueólogos Corioli Souter, Matthew Gainsford e Mike McCarthy, o conservador Jon Carpenter, o mergulhador Geoff Kimpton, o fotógrafo Patrick Baker, os dois voluntários Annie Boyd e Geoff Glazier. E ainda Susan Green, responsável pela cozinha de campo.
A escassos três metros e meio de profundidade, sobre o recife semeado de corais, os investigadores vêem pela primeira vez o objecto de tantos anos de busca. A 600 metros de distância, o fundo reservava ainda outra surpresa: um segundo naufrágio, provavelmente da segunda metade do século XIX, ainda não identificado.
«Levámos 5 minutos para encontrar o sítio arqueológico do séc. XIX e 15 minutos para identificar o Correio», diria Green mais tarde. No fundo e depois de uma pesquisa superficial, a equipa encontrou dois canhões com cerca de 1,2m de comprimento, uma âncora, uma enorme área coberta por centenas de placas em ferro, o lastro padronizado que seguia a bordo. E uma concressão com 22 kg de peso, de 700 a 1000 moedas de 8 reales espanhóis em prata. Uma pequena parte da fortuna que o Correio transportava.
Nesse mesmo dia, a notícia da descoberta correu mundo, anunciada por Sheila McHale, a ministra da Cultura e das Artes do Estado da Austrália Ocidental. A ressuscitada galera portuguesa vai até ser personagem principal de um documentário para televisão que está a ser preparado pela produtora australiana Prospero Productions, que deste modo e à semelhança de outras ocasiões, se associa ao financiamento do projecto arqueológico. Em Portugal, Francisco Alves, director do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática regozija-se. «O Correio da Azia está em muito boas mãos. Melhor, é difícil», diz de sorriso aberto. Francisco Alves está naquele preciso momento a preparar uma informação sobre a descoberta do Correio para o ministro Pedro Roseta, assim como outra, menos feliz, sobre o recente leilão na Holanda de peças provenientes de uma nau quinhentista portuguesa escavada em Moçambique. E o arqueólogo faz questão em referir que «é preciso que Portugal tenha uma posição clara sobre o património cultural subaquático e um critério normativo em relação a todas as descobertas deste tipo. Neste caso [Correio da Azia], o diálogo científico entre as duas partes está desde logo assegurado. Noutros casos, como o de Moçambique, não é assim».
Ao mesmo tempo que decorriam os festejos da descoberta, era guardado segredo absoluto sobre a localização exacta do achado. A probabilidade de existirem mais moedas de prata no fundo pode ser uma tentação irresistível para alguns. O verdadeiro trabalho de investigação tinha agora início. Era preciso encontrar resposta para inúmeras incógnitas: a quem pertencia o navio, o que fazia naquela costa, o que transportava, quantos homens iam a bordo, se teriam sido efectuados salvados com sucesso. E era em Lisboa que se podia encontrar o maior número de respostas.
Nas primeiras semanas de Maio, Alexandre Monteiro, arqueólogo, é contactado pelo Departamento de Arqueologia Marítima do WAMM. Na era dos emails, a informação voa à velocidade de um click entre vizinhos do mesmo prédio como entre continentes. E Alexandre não precisa de muitos incentivos para ajudar a desembaraçar um belo enigma como o do Correio da Azia. A sua alma de detective tem por costume, aliás, tramar-lhe parte das férias e dos fins de semana. Mergulha em bibliotecas e arquivos, passa horas a decifrar as letras desenhadas a pena, mas nem sempre decifráveis, de burocratas novecentistas: tabeliões, ouvidores, comandantes de navios, escriturários, funcionários de alfândega. Quanto mais pesquisa, mais pistas avoluma. A informação, muitas vezes secundária mas indispensável para se aproximar do bom porto, vai formando uma interminável meada.
À data de fecho desta edição da Grande Reportagem, Alexandre Monteiro tinha já coleccionado uma série de informações. Sabe-se já que desde 1813, pelo menos, a galera Correio da Azia estava autorizada a demandar os portos da Ásia; a embarcação fazia com regularidade o percurso Lisboa-Macau; era um navio mercante, registado na praça de Lisboa e propriedade de José Nunes da Silveira; até Maio de 1816, tudo indica que o seu comandante foi Joaquim Lino da Costa, que em 1817 continuava a capitanear navios rumo a Macau; a 22 de Maio de 1816, aliás, o Correio chegou a Lisboa proveniente de Macau, após uma viagem recheada de escalas que levou 170 dias e carregada sobretudo de chá, «gangas», canela, sedas, porcelanas da China e uma caixa de «drogas», talvez ópio; segundo um requerimento do comandante do Correio, João Joaquim de Freitas, o navio levava a bordo 106 500 patacas na fatídica viagem; não era a primeira vez que Joaquim de Freitas comandava um navio de Lisboa a Macau; nos primeiros meses de 1817, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macau, autorizou a saída do brigue Emillia para se deslocar ao local de naufrágio e tentar recuperar o dinheiro; o Emillia acabaria os seus dias nos estreitos de Gaspar, depois de embater contra um ilhéu rochoso conhecido por Discovery Rock, em águas da antiga colónia holandesa de Java, actual Indonésia.
Apesar de tudo, o capitão-tenente João Joaquim de Freitas teria sorte. Em Julho desse mesmo ano, uma outra tragédia marítima ficaria para a História, imortalizada pelo pintor francês Théodore Géricault, em 1819, no quadro “Le Radeau de la Méduse” que se pode admirar no Museu do Louvre em Paris. O naufrágio da fragata francesa La Méduse causaria grande estremecimento na sociedade francesa, depois de se saber da incompetência do seu comandante, da barbárie dos seus oficiais e dos actos de canibalismo a que os sobreviventes se tinham dedicado. Os homens que seguiam a bordo da galera portuguesa, pelo contrário – ou melhor, quase todos os homens – teriam a sorte de ser salvos.
O relato pertence ainda ao protesto de naufrágio que o capitão-tenente apresentará dois meses depois em Macau. Quando o dia rompe, os naúfragos do Correio, enfiados na lancha de salvamento e num bote a remos, estimam uma distância de terra de seis a oito milhas. A maré está vazia e até à costa não se vislumbra qualquer obstáculo. Ao contrário do local onde se encontram, onde «pela Popa e Proa tudo erao cabeças de pedras fora de agua que se estendia ao mar mais de huma milha». Conseguem deixar para trás o recife e navegam rumo a Norte. A bordo levam bússola e talvez um sextante, para achar latitudes. Ao longo do dia avistam uma série de recifes e a ilha de Cloates. O vento sopra de Sudoeste. Às onze da noite dobram o Cabo Noroeste, seguindo ao longo da costa à procura de uma enseada para aportar. Pelas quatro horas da tarde do dia 27, chegam a terra. Mas têm pressa. Já ouviram dizer que o território está cheio de animais selvagens. O bote a remos, que trazem a reboque, é desmanchado para reforçar a lancha com uma borda falsa. O objectivo é preparar a pequena embarcação para enfrentar «a Travessia que há entre a Costa da Nova Hollanda e as estreitas».
Alguns marinheiros, com «os dous Escripturarios e o Cirurgiao» aproveitam para explorar as imediações. Procuram água doce e talvez encontrem algunas nativos que os possam ajudar. Quando regressam, faltam dois homens. Os outros contam que não encontraram nada, apenas «pegadas de animais brutos, assim como de Leons, Tigres e Lobos, e muitos rastilhos de Cobras e algumas barracas de barro cubertas de palha e com as portas muito piquenas». Às seis da tarde, na praia, os naúfragos estão prontos a partir. Esperam ainda duas horas pelos dois homens desaparecidos, lançam gritos à sua procura, depois desistem. Receiam o mesmo fim desses dois marinheiros que suspeitam terem sido comidos por animais ou mortos pelos nativos. Às oito da noite, João Joaquim de Freitas, dá ordem para içar a vela. Com vento de Sueste, mantém-se fiel ao rumo Norte. Aparentemente sem grandes remorsos em deixar dois homens para trás.
Se o azar lhes bateu à porta na noite anterior, a sorte parece ter agora virado 180º. Meia hora de navegação depois, avistam uma galera a navegar na mesma direcção. Amarram um lençol a um dos remos a pedir socorro e são notados. Às onze e meia da noite entram a bordo do navio norte-americano Caledonia, saído de Filadélfia e que ruma a Cantão. Os portugueses são recebidos «com muitas caridades». Joaquim de Freitas relata o seu naufrágio, confere latitudes e rumos, compara cartas náuticas. E conclui que a sua carta não era fiável. O capitão estrangeiro conta-lhe relatos de outros naufrágios naquelas paragens e experiências próprias. A conversa entre comandantes flui em inglês. Será agradável, mas é preciso dar destino aos náufragos. O Caledonia vai aproximar-se de Timor e, sem aportar, largar os portugueses a pouca distância, na lancha. Uma intenção que depressa se desfaz, já que, misteriosamente – ou talvez não –, pelas três horas da tarde do dia 28, a pequena embarcação se afunda «feita em pedaços». Um alívio, parece, para a tripulação portuguesa que agradece a Deus aquele «favorecimento».
O «Estabelecimento Portuguez» em Timor, naquele tempo e segundo testemunhos da época era «um lugar miserável». A descrição de Dili, feita por um comandante holandês, D. H. Kolff, que ali aportou em 1825, deixa tudo a desejar. soldados e oficiais, muito mal pagos, viviam em instalações «miseráveis, sujas e pobres. Por várias vezes quiseram que eu comprasse escravos e o comandante, entre outros, queria que eu comprasse duas crianças de 7 ou 8 anos, com pesados grilhões de ferro». Para os náufragos do Correio o fim da lancha era uma benção. O Caledonia ia largá-los, sem outro remédio, na Leal Cidade de Deus de Macau.
A 17 de Fevereiro de 1817, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, Ouvidor de Macau, dava conhecimento ao Governador daquela cidade do naufrágio do Correio, das 6036 patacas que se tinham podido salvar, das mais de cem mil perdidas e da viagem de salvados que tinha autorizado. Tratava-se de muito dinheiro para deixar no fundo do mar. No porto, o único navio disponível é o brigue Emillia, propriedade de Pedro José da Silva Loureiro, que pede 40 por cento sobre os valores que vierem a ser salvos. Brum da Silveira não acha o pedido exagerado: o navio é pequeno e os perigos são muitos. Para piloto contrata Luis António da Silva Beltrão e a comandar vai o mesmo do Correio, João Joaquim de Freitas.
Esta é a colecção de certezas que, em Lisboa, o arqueólogo Alexandre Monteiro juntou. E não são poucas. Mas inúmeras outras questões requerem ainda resposta. Sabe-se, por exemplo, que o Emillia acabou também por naufragar, nos estreitos de Gaspar, provavelmente no ano de 1817. Mas não se sabe se tal terá acontecido durante a viagem de salvamento à costa ocidental australiana autorizada por Brum da Silveira, se à ida ou no regresso, ou se durante uma viagem posterior; se foram ou não realizadas outras operações de salvados; e porque ia o Correio da Azia em viagem directa para Macau, se o costume era escalar, pelo menos, o Brasil? E que destino teriam aquelas duas toneladas e meia de prata em moeda?
Nas águas claras do recife de Ningaloo, os arqueólogos australianos encontrarão, seguramente, outras pistas. Embora Corioli Souter, membro da equipa, prefira não ser optimista, no que toca, por exemplo, a restos do casco em madeira do navio: «no local parecem sobrar apenas artefactos em metal. É provável que os restos orgâncos tenham sido destruídos e arrastados pelo mar e pelos os ventos predominantes de sudoeste».
Até ao final de Junho, o Museu Marítimo da Austrália Ocidental, tem já em exibição uma pequena mostra sobre os achados e a história do Correio da Azia. E no Departamento de Arqueologia, prepara-se o arranque da campanha. Entre Fremantle e Lisboa, a reconstituição da saga do Correio da Azia dá ainda os primeiros passos.
* Cortesia do Departamento de Arqueologia Marítima do Western Australian Maritime Museum