Junho 29, 2004

Pesquisa subaquática pode ser impugnada

O Governo [Regional dos Açores] vai avançar com prospecções subaquáticas na baía de Angra quando decorre um julgamento que opõe mergulhadores às autoridades regionais.

Diário Insular, 29 de Junho de 2004

Os trabalhos de prospecção para a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores (CASA), previstos para esta semana na baía de Angra do Heroísmo, poderão ser impugnados por via judicial.

O Tribunal Administrativo de Ponta Delgada está a efectuar o julgamento de um litígio que opõe mergulhadores da Terceira às autoridades sobre o registo de achados arqueológicos subaquáticos que se encontram depositados no fundo da baía de Angra.

Os mergulhadores reclamam das autoridades as compensações financeiras previstas na legislação para quem proceder ao registo de achados arqueológicos nos mares nacionais. As alegações finais do julgamento terão lugar na próxima sexta-feira.

Luís Rafael do Carmo, advogado dos mergulhadores que reclamam as compensações, disse ontem que ficou surpreendido com a decisão da direcção regional da Cultura de avançar com prospecções subaquáticas na baía de Angra antes de ser conhecido o desfecho do julgamento.

O advogado referiu que está a ponderar as medidas que deverá tomar para “assegurar os direitos” dos seus clientes.

PARQUES ARQUEOLÓGICOS

O director regional da Cultura, Vasco Pereira da Costa, disse à Agência Lusa que a elaboração da CASA vai permitir a criação de “um roteiro de parques arqueológicos subaquáticos, com o objectivo de criar um produto turístico específico”.

Vasco Pereira da Costa adiantou que “estão previstas investigações científicas às zonas de centenas de naufrágios em todo o arquipélago que, além de constituírem um património português e europeu, incluem bens de elevado valor histórico”.

Adiantou que os trabalhos científicos serão coordenados pela arqueóloga da direcção regional da Cultura, Catarina Garcia, enquanto que a prospecção conta com a colaboração de técnicos da Região e da fundação alemã Rebikoff-Niggeler, que tem sede na cidade da Horta.

Considerada em 2000 pelo Governo Regional como instituição de utilidade pública, a fundação vai disponibilizar o submarino autónomo “Lula”, que tem capacidade para mergulhar até 500 metros de profundidade.

O Governo Regional pretende criar um banco de dados informatizado com vista à formação do Arquivo de Naufrágios Documentados dos Açores.




Junho 27, 2004

Prospecções para Carta Subaquática nos Açores

Público, Domingo, 27 de Junho de 2004

As prospecções que vão permitir elaborar a Carta Arqueológica Subaquática dos Açores iniciam-se na próxima semana na baía de Angra do Heroísmo, anunciou ontem o director regional da Cultura. Vasco Pereira da Costa sublinhou que a carta subaquática vai levar à "elaboração de um roteiro de parques arqueológicos subaquáticos, com o objectivo de criar um produto turístico específico".

Estão também previstas investigações científicas às zonas de centenas de naufrágios em todo o arquipélago que, além de constituírem um património português e europeu, incluem bens de elevado valor histórico, realçou o director regional. Vasco Pereira da Costa adiantou à Lusa que os trabalhos científicos serão coordenados pela arqueóloga da direcção regional da Cultura, Catarina Garcia, enquanto que a prospecção conta com a colaboração de técnicos da região e da fundação alemã Rebikoff-Niggeler, que tem sede na cidade da Horta.

Considerada em 2000 pelo Governo Regional como instituição de utilidade pública, a fundação vai disponibilizar o submarino autónomo "Lula", que tem capacidade para mergulhar até 500 metros de profundidade. Paralelamente, o executivo açoriano vai criar um banco de dados informatizado para a carta subaquática, constituído por informações das mais diversas fontes com vista à formação do Arquivo de Naufrágios Documentados dos Açores.

A carta deu os seus primeiros passos em 1995, mas os trabalhos foram interrompidos para que fosse efectuada a prospecção da baía de Angra do Heroísmo, de onde foram mudados alguns restos de naufrágios de forma a ser construído um porto de recreio. Nesse projecto colaboraram com a direcção regional da Cultura o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática do Instituto Português de Arqueologia e o Institute of Nautical Archeology da Universidade do Texas. Segundo Vasco Pereira da Costa, a direcção regional da Cultura pretende, também, organizar uma exposição itinerante pelas ilhas, denominada "Leitura da Terra e do Fundo do Mar - Memória dos Homens", que visa sensibilizar os jovens para a disciplina da arqueologia.



Junho 25, 2004

Bell from Columbus's ship goes back to Spain

By Daniel Woolls in Madrid, The Independent, 21 June 2004


The bronze bell that rang out from Christopher Columbus's flagship Santa Maria when the explorer first saw America has been returned to a Spanish auction house after a legal dispute with Portugal, in whose waters the bell was found.

In a ruling 10 days ago, a Spanish criminal court judge rejected Portugal's claim that the broken bell - found by a professional diver in 1994 inside a Spanish galleon in shallow waters just off Portugal - had been stolen from Lisbon.

The bell, seized by Spanish police in February 2003 at the request of Portugal three days before its planned auction in Madrid, was returned on 11 June to the Barcelona-based auctioneers Gestion de Activos y Subastas, and is now in a safe in a Madrid bank. David del Val Catala, the director of the auction house, said: "We have won the first round."

A Spanish civil court judge has scheduled a hearing for 11 July on whether Portugal can still claim the bell. But even if the judge rules in favour of Portugal, its government would have to pay for it.Claudio Bonifacio, a Spanish historian specialising in shipwrecks and sunken treasures, says it is the oldest ship's bell ever recovered, and the only known relic from Columbus's first journey across the Atlantic. "For me there is absolutely no doubt as to its authenticity," he said yesterday. It also symbolises the moment when European settlers first glimpsed the New World.

The Spanish news agency Efe said yesterday the bell had been appraised at €30 to €50m (£20 to £33m). The Spanish government has the right to match the winning bid when the bell is auctioned and to take possession of it as part of the country's historical heritage.



Junho 22, 2004

Columbus' bell returned to Spanish auctioneers: Portugal claims rights to relic, which was found off its coast

MSNBC, Paul White / AP



The disputed bell is seen in this Feb. 17, 2003 file photo, held by chief auctioneer Francisco J. Garcia-Santos, right, and an unidentified assistant. The bell was seized by Spanish police that month at the request of Portugal.


Updated: 10:37 p.m. ET June 20, 2004, MADRID, Spain - The bronze bell that rang out from Christopher Columbus’ flagship Santa Maria when the explorer first spotted America has been returned to Spanish auctioneers after a legal dispute with Portugal, in whose waters the artifact was found, the auction house said Sunday.

In a ruling 10 days ago, a Spanish criminal court rejected Portugal’s claim that the rusty, broken bell — found in 1994 by a diver inside a Spanish galleon in shallow waters just off that country’s coast — had in effect been stolen from Portugal.

The bell, seized by Spanish police in February 2003 at the request of Portugal three days before its planned auction in Madrid, was returned June 11 to the Barcelona-based auction house Gestion de Activos y Subastas, its spokesman David del Val Catala told The Associated Press from Barcelona.

It is sitting inside a safe at a Madrid bank. “We have won the first round,” del Val Catala said.

The 31-pound bell is about 10 inches high, and 10 inches wide at its bottom rim. It is covered with a turquoise-colored residue and has a gaping hole with jagged edges in its upper part. Encrusted in the bottom part is a flat, white seashell the size of a fingernail.

The national news agency Efe said Sunday the bell has been appraised to be worth between $30 million to $60 million. Del Val Catala said that range sounds about right. “It is a piece like no other,” he said.

Now, a Spanish civil court judge has scheduled a July 11 hearing on whether Portugal can still claim the bell. But even if the judge rules in favor of Portugal, its government will have to pay for the artifact. It would be up to the judge to set the price.

Claudio Bonifacio, a Spanish historian specializing in shipwrecks and sunken treasures, says it is the oldest ship’s bell ever recovered and the only known relic from Columbus’ first journey across the Atlantic. It also symbolizes the moment when European settlers first glimpsed the New World.

Del Val Catala said that if and when his company gains full rights to the bell, the auction might be rescheduled for later this year. The Spanish government has the right to match the winning bid and take possession of the bell as part of the country’s historical heritage.

Bidding had been scheduled to start at $1 million at the auction that was thwarted in 2003.

Portugal claims the bell because it was found in Portuguese waters. The auctioneers, acting on behalf of Italian diver Roberto Mazzara, who found it, say the bell is Spanish because it was found inside a Spanish vessel, the San Salvador. The criminal court judge agreed.

“The Santa Maria was and is part of Spain’s historical heritage,” Mazzara said Sunday from his home in Algeciras in southern Spain. “It is absolutely none of Portugal’s business.”
Portuguese officials were not available for comment Sunday

Mazzara, a professional diver, did years of detective work to prove the bell is the one that rang out when Columbus and his three-ship flotilla arrived in America after their historic voyage in 1492.

Mazzara found it amid the wreckage of the gold-laden Spanish galleon San Salvador, which sank off Portugal in 1555 while returning to Spain from the island of Hispanolia.

He and academics argue that Columbus had used the bell at a fortress he ordered built on Hispaniola, until it was decided the artifact was so valuable it should be shipped back to Spain.
Mazzara and the auction house say they cannot prove beyond doubt that the bell is the real thing, but insist it is.

Every available scientific study has been carried out on the bell and on historical documents surrounding the shipwreck, and they all point to the bell being authentic, del Val Catala said.



Junho 21, 2004

Mystery of stone anchors

East Lothian News, 18 June 2004

Divers at Dunbar have turned archaeologists in a bid to unlock the past surrounding mystery stone anchors found off the local shore.

They are also hoping members of the public will help them in their quest to learn more about the maritime artefacts which they discovered six years ago while diving about a mile east of the town.

Now owned by the East Lothian Museum Service, the anchors are currently at the Chambers Street Museum Conservation Unit in Edinburgh undergoing conservation work while others are on display in the Dunbar Town House Museum.

Underwater survey

Members of the British Sub Aqua Club Branch No 21 or the Edinburgh Divers, who found the anchors, have been involved in a training course to enable them to carry out archaeological surveys of the area. They carried out a practice underwater survey recently.

The divers hope to conduct a thorough investigation of the anchor site over the summer months in the hope of finding more clues to help them solve the mystery.

Spokeswoman Lorna Goudie said: "There is considerable interest coming from archaeologists, to say nothing of dive club members, as to the history of the anchors about which nothing is known.

Fishing techniques

"They are almost unique in British waters with only one other find in Dorset known and these are not nearly so well made as the Dunbar anchors."

He explained: "Simple stones, with one hole to take a rope, are well known and these were used in fishing techniques.

"The Dunbar anchors are much larger, weighing 25 kg, have been carved to a triangular shape and have two well carved holes, one at the apex for a rope attachment and one rectangular hole, probably to take wooden anchor flukes.

"Some are made of sandstone others of Tuff which is sedimented volcanic ash."

She appealed to members of the public for help in establishing the origins of the anchors, asking:

"Do you know of an anchor that is in someone's back garden or has been built into a wall? Do you know what they were used for?

Ancient industry

"Remember that they are well carved and seem too well made and too heavy to be used as fishing weights.

"Does anyone know of an ancient quarry where these stones might have been cut? There might have been an ancient industry in East Lothian."

Anyone who can help out with information about the anchors can contact Ms Goudie at lorna@damhead.fslife.co.uk







Junho 20, 2004

O naufrágio das patacas

Grande Reportagem, ano XV, 3ª série, 19 de Junho de 2004


Com pompa e circunstância, o Governo do estado da Austrália ocidental anunciou, recentemente, a descoberta dos destroços de um navio português, que há perto de dois séculos naufragou na costa ocidental da Austrália. Um achado importante e muito perseguido: o Correio da Azia conseguiu iludir os arqueólogos do Western Australian Maritime Museum durante década e meia, e esta pequena galera é o primeiro navio português encontrado nestas paragens. Sabe-se também agora que a bordo seguiam mais de cem mil patacas, cerca de 2,5 toneladas de prata em reales espanhóis cunhados no México, mas cujo destino permanece uma incógnita. Primeiros passos de uma investigação intercontinental, que decorre entre Fremantle e Lisboa, com muitas perguntas ainda sem resposta

Texto: Mónica Bello
Fotografia: Patrick Baker*

A noite descera. E à semelhança de todas as outras noites, o comandante postara vigias à proa. Com vento de Oeste, a galera de bandeira portuguesa sulcava as águas a uma média de cinco a seis milhas por hora. No dia anterior tinham «observado o Sol ao meio dia, ao termo médio das tres latitudes Sul vinte e quatro graos Dezasseis minutos» e avistado pela primeira vez um bocado de terra naquela costa ocidental da Nova Hollanda, identificando-a na carta como a «ilha Barren». E horas antes, pelas sete da tarde, vigias e oficiais tinham apontado uma «Barreira branca alta» na costa, a oito ou nove milhas de distância. João Joaquim de Freitas, capitão tenente do Departamento de Marinha de Goa e comandante nesta viagem directa de Lisboa a Macau do Correio da Azia, tinha de imediato mandado orçar, aproximando a proa do seu navio ao vento e apontando-a a Nornoroeste, de modo a manter a distância julgada segura da costa. À meia-noite não se vislumbrava já qualquer sinal de terra. Meia hora depois, seguindo novas ordens do comandante, o piloto ajustava o rumo ao Norte. Algures para estibordo ficava a Nova Hollanda, isso era certo. Tão certo como a carta náutica recheada de erros que seguia a bordo, os recifes traiçoeiros que espreitavam bem perto e, provavelmente, as fortes mas invisíveis correntes que se preparavam para ditar a desgraça.

Três anos mais tarde, em 1819, a Imprensa Régia mandaria imprimir no Rio de Janeiro uma obra do hidrógrafo-mor da Marinha Real portuguesa. E no seu Roteiro Sobre a Navegação do Mar da China, Joaquim Bento da Fonseca não faria qualquer cerimónia em atribuir a desdita do Correio da Azia também à ignorância do seu comandante. «Se os oficiais [daquele navio] tivessem lido mais atentamente o resultado das viagens das corvetas de guerra [francesas] Naturaliste, Geographe e Investigateur [1800-1803] (...), teriam ficado com um conhecimento mais rigoroso da Nova Hollanda, ou seja, teriam deduzido que a costa noroeste daquele país (...) está rodeada de recifes e que em nenhum local foi erguido qualquer observatório (...)». Mas naquela primeira hora do dia 26 de Novembro de 1816, os homens que seguiam a bordo do Correio da Azia mantinham-se atentos, como mandavam as regras de navegação em águas pouco conhecidas, e longe de imaginarem o que a sorte lhes reservava.

Tudo se precipitou numa escassa hora. E fazendo jus ao ditado que diz que uma desgraça nunca vem só. O protesto do naufrágio que João Joaquim de Freitas entregou dois meses mais tarde em Macau, ao Tabelião Público de Notas «por sua Magestade Fedelisma, que Deos Guarde», refere que pela uma da manhã terá «pegado um fogo na bitácula», a caixa que envolve a bússola, «o qual durou por hum quarto de hora, não podendo [o piloto] governar por a Agulha o caminho determinado». O problema ter-se-à resolvido rapidamente, «pela Luz de huma Lanterna», fazendo regressar o navio ao rumo certo. Mas quinze minutos depois, antes mesmo dos vigias de plantão darem pelo perigo, o escriturário e o contra-mestre de bordo davam o alarme na tolda. Tinham avistado «huma arrebentação por Sotavento da Proa por Estibordo», que é, como quem diz, em linguagem de leigo, qualquer coisa como «fundo baixo ou rochas mesmo ali em frente sobre a direita».

O comandante não perde tempo. Dá ordens para orçar «todo a bolina», tentando navegar a todo o pano contra o vento que sopra de Oeste e afastar-se da turbulência ameaçadora, e a âncora é deixada a postos, como último recurso. A manobra, no entanto, parece não dar resultado – as ondas continuam a rebentar bem à vista, à proa do navio. João Joaquim de Freitas manda virar de bordo, mas as correntes contrárias são já, provavelmente, demasiado fortes. Antes mesmo dos homens terem tempo para cumprir as ordens, o navio bate duas vezes na rocha. Por momentos, parece até que a pequena galera se vai conseguir livrar do perigo: o navio continua a navegar, prepara-se a viragem de bordo, arreiam-se todas as velas e não se avista já qualquer turbulência. Mas é bonança de pouca dura. O casco estremece quando embate mais uma vez, depois outra, a última, que o deixa sem leme. «Imediatamente atravessou o navio ao mar», adornando sobre bombordo e enchendo-se de água com o mar a rebentar com violência sobre o convés. Joaquim de Freitas manda cortar as «enxárcias de estibordo dos mastaréus», o conjunto de cabos que sustenta os mastros e dá acesso às vergas, para evitar que o navio vire e, ao mesmo tempo, facilitar o lançamento da lancha de salvamento ao mar.

O Correio da Azia está perdido. Na noite escura, «não se podendo afastar para o largo pelo motivo das muitas pedras que aparecião fora da agua», os naúfragos passam as horas seguintes, «até ao romper do dia», naquela lancha, presa ao que sobra dos mastros, conseguindo salvar «três barris de bolacha e couza de três almudes de agua». E pouco mais de 6300 patacas da verdadeira fortuna que seguia a bordo: 106500 patacas, nome que os portugueses davam às moedas espanholas de 8 reales, em prata, cunhadas no México, a moeda forte da época. Qualquer coisa como 2,5 toneladas de metal precioso. Correspondentes, hoje, a mais de 2,6 milhões de euros.

Durante alguns anos, poucos, o naufrágio do Correio da Azia seria lembrado em alguns roteiros naúticos como exemplo dos perigos para a navegação nos mares do Oriente. Mas documentos oficiais e roteiros acabariam por desaparecer sob o pó dos arquivos. Seria preciso esperar mais de 170 anos para que se voltasse a falar da infortunada galera portuguesa. Até 1988, quando Graeme Henderson, director do Western Australian Maritime Museum (WAMM, Museu Marítimo da Austrália Ocidental), sediado em Fremantle, e autor de uma série de livros sobre naufrágios ao longo da costa ocidental australiana, teve conhecimento que se ia realizar um leilão de obras antigas, entre as quais constava uma cópia de um relato de um piloto português, Luís António da Silva Beltrão, «Primeiro Piloto de Carta Patente», publicado na Índia inglesa em 1818, e contendo «Instruções para navegar nas proximidades da costa Noroeste da Nova Hollanda no brigue Emillia». Por um feliz acaso, as notas de Beltrão não podiam encontrar melhor dono: a biblioteca do WAMM, museu classificado pelo governo australiano como «centro de excelência» da arqueologia marítima, e reconhecido pelos seus pares como um dos melhores do mundo. Aquelas instruções seriam também a primeira pista para encontrar o esquecido Correio da Azia, já que, quase dois séculos antes, aquele brigue, como relatava o piloto, tinha saído de Macau com a missão de tentar recuperar o que pudesse – a prata, obviamente – da sinistrada galera.

Para Jeremy Green, arqueólogo e director do Departamento de Arqueologia Marítima do WAMM, encontrar o navio português passou a fazer parte da sua lista de objectivos. Há quarenta anos que os investigadores do museu marítimo vão somando registos históricos e vestígios de naufrágios nesta costa ocidental australiana, contabilizando hoje a respectiva carta arqueológica cerca de 1400 ocorrências. De todos estes navios acidentados, no entanto, apenas 163 estão localizados – americanos, holandeses, ingleses, franceses. Nem uma única embarcação portuguesa, sabendo-se, ainda por cima, que os portugueses demandavam já estas paragens desde os anos de 1500. Encontrar o Correio da Azia, naufragado em 1816, não iria certamente obrigar a reescrever a História dos primeiros contactos europeus com a Austrália – que as provas encontradas até ao momento atribuem aos holandeses –, mas constituiria mais uma importante peça para a reconstituição de uma época de ouro nas trocas comerciais entre o Velho Continente e o Império do Meio, altura em que a portuguesa cidade de Macau era ainda a única porta de entrada na China.

Em meados dos anos de 1990, novo documento regressa à luz do dia. Do Arquivo Histórico-Ultramarino de Lisboa segue para Fremantle uma cópia do protesto de naufrágio do Correio (citado acima), elaborado pelo seu comandante João Joaquim de Freitas. Traduzido em 1995 pelo professor Steve Lubkemann, da universidade norte-americana de Brown, na altura a fazer investigação no WAMM, seria este relato a lançar Jeremy Green e a sua equipa para o terreno. Ou ao mar, mais exactamente.

Desde logo, os arqueólogos apercebem-se de discrepâncias entre as coordenadas referidas pelo capitão-tenente português, velocidades e distâncias percorridas. É provavelmente por essa razão que as primeiras duas tentativas para localizar os destroços do Correio, em 1997 e 1998, não surtem efeito. Não se perde o trabalho, apesar de tudo, já que a primeira busca acaba por revelar um outro naufrágio, o da barca austríaca Stefano, que em 1876 se afundou junto ao Cabo Noroeste carregada de carvão, quando seguia de Cardiff, País de Gales, para Hong Kong.

O que restava da galera portuguesa descansava, sem dúvida, por aquelas mesmas águas. As buscas continuaram, utilizando técnicas de sondagem manuais e remotas. Mas o insucesso começava a pesar. “Estávamos quase a desistir”, como recordava há algumas semanas Jeremy Green, em entrevista à estação ABC (Australian Broadcasting Corporation). Até que, em 2003, os arqueólogos recebem uma generosa oferta de uma companhia multinacional holandesa, a Fugro Survey, especializada em prospecção para as indústrias do petróleo, gás natural, mineira e de construção, e que se associa ao projecto, prontificando-se a efectuar uma prospecção aérea do local. O sofisiticado magnetómetro da Fugro assinalaria quatro possíveis locais sobre o recife de Ningaloo, ao largo de Point Cloates, algumas milhas a Sul do Cabo Noroeste. E cedo de manhã, a 29 de Abril deste ano, a equipa dirigida por Jeremy Green estava no local e a postos – constituída pelos arqueólogos Corioli Souter, Matthew Gainsford e Mike McCarthy, o conservador Jon Carpenter, o mergulhador Geoff Kimpton, o fotógrafo Patrick Baker, os dois voluntários Annie Boyd e Geoff Glazier. E ainda Susan Green, responsável pela cozinha de campo.

A escassos três metros e meio de profundidade, sobre o recife semeado de corais, os investigadores vêem pela primeira vez o objecto de tantos anos de busca. A 600 metros de distância, o fundo reservava ainda outra surpresa: um segundo naufrágio, provavelmente da segunda metade do século XIX, ainda não identificado.

«Levámos 5 minutos para encontrar o sítio arqueológico do séc. XIX e 15 minutos para identificar o Correio», diria Green mais tarde. No fundo e depois de uma pesquisa superficial, a equipa encontrou dois canhões com cerca de 1,2m de comprimento, uma âncora, uma enorme área coberta por centenas de placas em ferro, o lastro padronizado que seguia a bordo. E uma concressão com 22 kg de peso, de 700 a 1000 moedas de 8 reales espanhóis em prata. Uma pequena parte da fortuna que o Correio transportava.

Nesse mesmo dia, a notícia da descoberta correu mundo, anunciada por Sheila McHale, a ministra da Cultura e das Artes do Estado da Austrália Ocidental. A ressuscitada galera portuguesa vai até ser personagem principal de um documentário para televisão que está a ser preparado pela produtora australiana Prospero Productions, que deste modo e à semelhança de outras ocasiões, se associa ao financiamento do projecto arqueológico. Em Portugal, Francisco Alves, director do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática regozija-se. «O Correio da Azia está em muito boas mãos. Melhor, é difícil», diz de sorriso aberto. Francisco Alves está naquele preciso momento a preparar uma informação sobre a descoberta do Correio para o ministro Pedro Roseta, assim como outra, menos feliz, sobre o recente leilão na Holanda de peças provenientes de uma nau quinhentista portuguesa escavada em Moçambique. E o arqueólogo faz questão em referir que «é preciso que Portugal tenha uma posição clara sobre o património cultural subaquático e um critério normativo em relação a todas as descobertas deste tipo. Neste caso [Correio da Azia], o diálogo científico entre as duas partes está desde logo assegurado. Noutros casos, como o de Moçambique, não é assim».

Ao mesmo tempo que decorriam os festejos da descoberta, era guardado segredo absoluto sobre a localização exacta do achado. A probabilidade de existirem mais moedas de prata no fundo pode ser uma tentação irresistível para alguns. O verdadeiro trabalho de investigação tinha agora início. Era preciso encontrar resposta para inúmeras incógnitas: a quem pertencia o navio, o que fazia naquela costa, o que transportava, quantos homens iam a bordo, se teriam sido efectuados salvados com sucesso. E era em Lisboa que se podia encontrar o maior número de respostas.

Nas primeiras semanas de Maio, Alexandre Monteiro, arqueólogo, é contactado pelo Departamento de Arqueologia Marítima do WAMM. Na era dos emails, a informação voa à velocidade de um click entre vizinhos do mesmo prédio como entre continentes. E Alexandre não precisa de muitos incentivos para ajudar a desembaraçar um belo enigma como o do Correio da Azia. A sua alma de detective tem por costume, aliás, tramar-lhe parte das férias e dos fins de semana. Mergulha em bibliotecas e arquivos, passa horas a decifrar as letras desenhadas a pena, mas nem sempre decifráveis, de burocratas novecentistas: tabeliões, ouvidores, comandantes de navios, escriturários, funcionários de alfândega. Quanto mais pesquisa, mais pistas avoluma. A informação, muitas vezes secundária mas indispensável para se aproximar do bom porto, vai formando uma interminável meada.

À data de fecho desta edição da Grande Reportagem, Alexandre Monteiro tinha já coleccionado uma série de informações. Sabe-se já que desde 1813, pelo menos, a galera Correio da Azia estava autorizada a demandar os portos da Ásia; a embarcação fazia com regularidade o percurso Lisboa-Macau; era um navio mercante, registado na praça de Lisboa e propriedade de José Nunes da Silveira; até Maio de 1816, tudo indica que o seu comandante foi Joaquim Lino da Costa, que em 1817 continuava a capitanear navios rumo a Macau; a 22 de Maio de 1816, aliás, o Correio chegou a Lisboa proveniente de Macau, após uma viagem recheada de escalas que levou 170 dias e carregada sobretudo de chá, «gangas», canela, sedas, porcelanas da China e uma caixa de «drogas», talvez ópio; segundo um requerimento do comandante do Correio, João Joaquim de Freitas, o navio levava a bordo 106 500 patacas na fatídica viagem; não era a primeira vez que Joaquim de Freitas comandava um navio de Lisboa a Macau; nos primeiros meses de 1817, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macau, autorizou a saída do brigue Emillia para se deslocar ao local de naufrágio e tentar recuperar o dinheiro; o Emillia acabaria os seus dias nos estreitos de Gaspar, depois de embater contra um ilhéu rochoso conhecido por Discovery Rock, em águas da antiga colónia holandesa de Java, actual Indonésia.

Apesar de tudo, o capitão-tenente João Joaquim de Freitas teria sorte. Em Julho desse mesmo ano, uma outra tragédia marítima ficaria para a História, imortalizada pelo pintor francês Théodore Géricault, em 1819, no quadro “Le Radeau de la Méduse” que se pode admirar no Museu do Louvre em Paris. O naufrágio da fragata francesa La Méduse causaria grande estremecimento na sociedade francesa, depois de se saber da incompetência do seu comandante, da barbárie dos seus oficiais e dos actos de canibalismo a que os sobreviventes se tinham dedicado. Os homens que seguiam a bordo da galera portuguesa, pelo contrário – ou melhor, quase todos os homens – teriam a sorte de ser salvos.

O relato pertence ainda ao protesto de naufrágio que o capitão-tenente apresentará dois meses depois em Macau. Quando o dia rompe, os naúfragos do Correio, enfiados na lancha de salvamento e num bote a remos, estimam uma distância de terra de seis a oito milhas. A maré está vazia e até à costa não se vislumbra qualquer obstáculo. Ao contrário do local onde se encontram, onde «pela Popa e Proa tudo erao cabeças de pedras fora de agua que se estendia ao mar mais de huma milha». Conseguem deixar para trás o recife e navegam rumo a Norte. A bordo levam bússola e talvez um sextante, para achar latitudes. Ao longo do dia avistam uma série de recifes e a ilha de Cloates. O vento sopra de Sudoeste. Às onze da noite dobram o Cabo Noroeste, seguindo ao longo da costa à procura de uma enseada para aportar. Pelas quatro horas da tarde do dia 27, chegam a terra. Mas têm pressa. Já ouviram dizer que o território está cheio de animais selvagens. O bote a remos, que trazem a reboque, é desmanchado para reforçar a lancha com uma borda falsa. O objectivo é preparar a pequena embarcação para enfrentar «a Travessia que há entre a Costa da Nova Hollanda e as estreitas».

Alguns marinheiros, com «os dous Escripturarios e o Cirurgiao» aproveitam para explorar as imediações. Procuram água doce e talvez encontrem algunas nativos que os possam ajudar. Quando regressam, faltam dois homens. Os outros contam que não encontraram nada, apenas «pegadas de animais brutos, assim como de Leons, Tigres e Lobos, e muitos rastilhos de Cobras e algumas barracas de barro cubertas de palha e com as portas muito piquenas». Às seis da tarde, na praia, os naúfragos estão prontos a partir. Esperam ainda duas horas pelos dois homens desaparecidos, lançam gritos à sua procura, depois desistem. Receiam o mesmo fim desses dois marinheiros que suspeitam terem sido comidos por animais ou mortos pelos nativos. Às oito da noite, João Joaquim de Freitas, dá ordem para içar a vela. Com vento de Sueste, mantém-se fiel ao rumo Norte. Aparentemente sem grandes remorsos em deixar dois homens para trás.

Se o azar lhes bateu à porta na noite anterior, a sorte parece ter agora virado 180º. Meia hora de navegação depois, avistam uma galera a navegar na mesma direcção. Amarram um lençol a um dos remos a pedir socorro e são notados. Às onze e meia da noite entram a bordo do navio norte-americano Caledonia, saído de Filadélfia e que ruma a Cantão. Os portugueses são recebidos «com muitas caridades». Joaquim de Freitas relata o seu naufrágio, confere latitudes e rumos, compara cartas náuticas. E conclui que a sua carta não era fiável. O capitão estrangeiro conta-lhe relatos de outros naufrágios naquelas paragens e experiências próprias. A conversa entre comandantes flui em inglês. Será agradável, mas é preciso dar destino aos náufragos. O Caledonia vai aproximar-se de Timor e, sem aportar, largar os portugueses a pouca distância, na lancha. Uma intenção que depressa se desfaz, já que, misteriosamente – ou talvez não –, pelas três horas da tarde do dia 28, a pequena embarcação se afunda «feita em pedaços». Um alívio, parece, para a tripulação portuguesa que agradece a Deus aquele «favorecimento».

O «Estabelecimento Portuguez» em Timor, naquele tempo e segundo testemunhos da época era «um lugar miserável». A descrição de Dili, feita por um comandante holandês, D. H. Kolff, que ali aportou em 1825, deixa tudo a desejar. soldados e oficiais, muito mal pagos, viviam em instalações «miseráveis, sujas e pobres. Por várias vezes quiseram que eu comprasse escravos e o comandante, entre outros, queria que eu comprasse duas crianças de 7 ou 8 anos, com pesados grilhões de ferro». Para os náufragos do Correio o fim da lancha era uma benção. O Caledonia ia largá-los, sem outro remédio, na Leal Cidade de Deus de Macau.

A 17 de Fevereiro de 1817, Miguel de Arriaga Brum da Silveira, Ouvidor de Macau, dava conhecimento ao Governador daquela cidade do naufrágio do Correio, das 6036 patacas que se tinham podido salvar, das mais de cem mil perdidas e da viagem de salvados que tinha autorizado. Tratava-se de muito dinheiro para deixar no fundo do mar. No porto, o único navio disponível é o brigue Emillia, propriedade de Pedro José da Silva Loureiro, que pede 40 por cento sobre os valores que vierem a ser salvos. Brum da Silveira não acha o pedido exagerado: o navio é pequeno e os perigos são muitos. Para piloto contrata Luis António da Silva Beltrão e a comandar vai o mesmo do Correio, João Joaquim de Freitas.

Esta é a colecção de certezas que, em Lisboa, o arqueólogo Alexandre Monteiro juntou. E não são poucas. Mas inúmeras outras questões requerem ainda resposta. Sabe-se, por exemplo, que o Emillia acabou também por naufragar, nos estreitos de Gaspar, provavelmente no ano de 1817. Mas não se sabe se tal terá acontecido durante a viagem de salvamento à costa ocidental australiana autorizada por Brum da Silveira, se à ida ou no regresso, ou se durante uma viagem posterior; se foram ou não realizadas outras operações de salvados; e porque ia o Correio da Azia em viagem directa para Macau, se o costume era escalar, pelo menos, o Brasil? E que destino teriam aquelas duas toneladas e meia de prata em moeda?

Nas águas claras do recife de Ningaloo, os arqueólogos australianos encontrarão, seguramente, outras pistas. Embora Corioli Souter, membro da equipa, prefira não ser optimista, no que toca, por exemplo, a restos do casco em madeira do navio: «no local parecem sobrar apenas artefactos em metal. É provável que os restos orgâncos tenham sido destruídos e arrastados pelo mar e pelos os ventos predominantes de sudoeste».

Até ao final de Junho, o Museu Marítimo da Austrália Ocidental, tem já em exibição uma pequena mostra sobre os achados e a história do Correio da Azia. E no Departamento de Arqueologia, prepara-se o arranque da campanha. Entre Fremantle e Lisboa, a reconstituição da saga do Correio da Azia dá ainda os primeiros passos.

* Cortesia do Departamento de Arqueologia Marítima do Western Australian Maritime Museum



Junho 19, 2004

U.S., Britain sign treaty to protect Titanic

Friday, June 18, 2004 Posted: 1731 GMT (0131 HKT), CNN

NEW HAVEN, Connecticut (AP) -- The United States signed a treaty Friday with Great Britain to protect the undersea wreckage of the Titanic from damage and looting, the State Department said.

The treaty, which Britain signed in November, still must get approval from Congress before it takes effect.

The treaty would set up regulations to control visits to the site, John Turner, assistant secretary of state, said in a telephone conference call.

It also designates the Titanic as an international maritime memorial and would set up a system to document items removed from the site and make them available to the public.

The details and enforcement of the treaty will be decided by the countries.

The Titanic hit an iceberg and sank April 15, 1912, killing 1,500 people. Its wreckage is in international waters 225 miles off the coast of Newfoundland.

The treaty came at the urging of undersea explorer Robert Ballard, who found the Titanic 18 years ago. He revisited the wreck this month to chronicle the damage to the ship, caused both by natural forces and by visitors and salvagers.

Ballard said he hopes other countries, including France, Canada and Russia, will also sign the treaty.

"I'm encouraged now to see the momentum picking up, and I think several things would need to go on before I could `call the Titanic safe,' but it's absolutely the right thing to do," Ballard said.



Junho 18, 2004

Aqui fica reprodução de "Carta a Jacinto Veloso", da autoria de Maura Quatorze e Machado da Graça, publicada no Mediafax de 16 de Maio de 2004 (nº 3052), relativa à problemática da exploração do património arqueológico subaquático em águas moçambicanas, mais uma vez via Ma-Schamba, a quem agradecemos todo o interesse demonstrado por este flagelo da caça ao tesouro.


CARTA A JACINTO VELOSO

Em resposta à sua carta, publicada no jornal O PAÍS de 12 de Junho de 2004, gostaríamos de dizer o seguinte:

Em relação aos princípios básicos que enuncia estamos de acordo com as alíneas a) (soberania moçambicana sobre navios e cargas naufragados nos nossos mares); b) (Exploração das estações respeitando as normas da arqueologia marítima e; c) (Recuperação dos bens e realização de estudos). Em relação à alínea d) não podemos estar de acordo por prever algo que, de acordo com a nossa interpretação da lei moçambicana, e a interpretação de juristas por nós consultados, é ilegal.


Na verdade não nos parece que a decisão do Conselho de Ministros, de 5 de Novembro de 1998, possa servir de cobertura à retirada da classificação de peças arqueológicas encontradas vários anos mais tarde.

É nossa interpretação que a retirada da classificação dos bens culturais só pode ser feita, pelo Conselho de Ministros, a posteriori, em presença das peças em causa e, peça a peça, através de uma peritagem que possa determinar se as peças são, ou não, de valor patrimonial. Ora, Segundo a Directora Nacional Angela Kane isso não foi feito. Continuamos, portanto, a pensar que a venda das peças no leilão na Holanda foi feita à margem da lei.

No que diz respeito ao facto de as peças exportadas serem duplicados de outras que ficaram para o espólio moçambicano, parece-nos fraco consolo, na medida em que é muito diferente possuir um prato Ming ou uma colecção de uma dúzia de pratos Ming iguais.

Concordamos que o ideal seria que se conseguissem financiamentos (por exemplo da UNESCO) para realizar o trabalho sem se recorrer à venda dos artefactos. Estará a ser feito algum esforço nesse sentido?

Igualmente nos parece que seria interessante o tal projecto de recuperação da nau portuguesa junto a Inhambane. Não estará o governo português disposto a uma parceria nesse sentido? Mais uma vez gostaríamos de saber se algum esforço está a ser feito nesse sentido.

Surpreendente, também, o facto de terem sido já feitas partilhas dos bens recuperados, na medida em que o próprio relatório da Arqueonautas, de Dezembro de 2002, afirma que “foi decidido que sem uma detalhada publicação das descobertas e escavações era impossível naquele estágio discutir a repartição da porcelana.” Ora não temos conhecimento de que tenha sido feita qualquer publicação sobre este assunto e é óbvio que as partilhas foram já feitas e a parte da Arqueonautas exportada.

Lamentável também que essas peças tenham abandonado o país e sido dispersas, através da venda em leilão, sem que os moçambicanos tenham tido a possibilidade de, ao menos, as verem numa exposição em Moçambique.

Lamentamos igualmente que só agora, depois de toda esta questão levantada, os moçambicanos tenham ficado a saber que possuímos um tão rico espólio de porcelana chinesa, conhecimento até aqui mantido no segredo dos deuses.

E isto introduz a questão geral da falta de transparência com que todo este processo tem sido tratado.

Na verdade o art. 6, ponto 1 do contrato entre o Estado e a Arqueonautas/Património Internacional, refere um segredo rigoroso e completo, muito para além da protecção dos locais prevista no art. 19 da Convenção da UNESCO que cita . Refere-se a todo o conteúdo do contrato. O público tem sido mantido na ignorância do que está a acontecer, com excepção de raros, e pouco informativos, artigos em jornais.

Em relação à questão da fiscalização, o problema nos parece mais grave. Segundo o relatório da Arqueonautas, as escavações propriamente ditas começaram a 25 de Outubro de 2001 e a nomeação do Dr. Leonardo Adamovicz como fiscal só foi realizada em 2003.

A situação atingiu mesmo o ponto, como sabe, de ter sido assinado um anexo ao contrato, a 18 de Junho de 2003, cujo art. 14 afirma que: “O Contratado é irresponsável e o projecto em desenvolvimento mantém-se ininterrupto e inalterável se o Contratante, ou qualquer entidade com ele relacionada, não providenciar a necessária equipa de fiscalização, conforme o estipulado no contrato”. Este anexo ao contrato foi assinado pela Dra. Ângela Kane, por si próprio e por um representante da Arqueonautas.

Ora este artigo, pura e simplesmente, afirma que o Estado moçambicano autoriza, por escrito, que os trabalhos se realizem sem qualquer fiscalização.

Debruçando-nos agora sobre o relatório produzido pelo Dr. Adamovicz verificamos que ele próprio foi colocado perante uma situação em que lhe foram negados elementos essenciais para o seu trabalho. Refere ele a:

a) Falta dos relatórios preliminares;
b) Falta de divulgação dos resultados parciais através dos mass-media;
c) Falta de envolvimento dos arqueólogos e técnicos nacionais;
d) Falta do plano de formação para futuros arqueólogos e técnicos nacionais na área da arqueologia sub-aquática.

Encarando ainda o relatório da Arqueonautas do ponto de vista científico, Leonardo Adamovicz refere ainda a:

a) Falta de documentação fotográfica das pesquisas efectuadas (no laboratório e no campo);
b) Falta dos mapas, ilustrações e exemplos das fichas básicas do registo.

Tudo isto nos diz que a questão da fiscalização é bem mais grave do que o simples ter tido momentos de maior presença no local do que outros, como refere na sua carta.

Isto se não partirmos logo do contrato inicial em que se define que a equipa de fiscalização será paga pelo Contratado. Isto é, por contrato os fiscais são pagos pela parte a ser fiscalizada! Mais uma curiosidade de um contrato tão cheio delas.

Termina a sua carta afirmando: “Fico à disposição”.

Muito lhe agradecemos, na medida em que desde o dia 1 de Junho temos vindo a insistir com a sua secretária no sentido de podermos ser recebidos por si, sem que esse encontro tenha sido possível até ao momento em que escrevemos esta carta (terça-feira 15 de Junho).

Porque achamos que as respostas devem ser dadas nos órgãos de informação onde foram publicados os textos a serem respondidos, enviamos esta carta para o jornal O PAÍS e, igualmente, para o SAVANA e o MEDIAFAX, onde levantámos a questão pela primeira vez.

Os nossos cumprimentos

Maura Quatorze
Machado da Graça




Junho 15, 2004

Scientists search for 'mystery ship' on Oregon coast

Katu News, June 13, 2004

By JOSEPH B. FRAZIER, Associated Press Writer

LINCOLN CITY, Ore. (AP) - There is something about a wrecked mystery ship that conjures spine-tingling images of high-seas drama, swashbucklers and pieces of eight.

But there was little of that in the Blanco, a two-masted square-rigger built for the coastal trade, to help feed the voracious demand for lumber and other supplies in booming San Francisco and the California and Nevada mines.

She left San Francisco Nov. 6, 1864, headed for Coos Bay, Ore. The next news came in the Oregon Statesman in Salem on Jan. 2, 1865.

"A large brig from San Francisco named Blanco, was wrecked a few days since at the mouth of the Silets (sic) River," wrote Indian agent Ben Simpson. "I have just returned from an examination of the vessel. She is a total wreck. Her masts are gone, her deck broken and her hull is split from deck to keel."

So there she sat, and there she sits. From time to time, but not for years, ships' ribbing has poked through the shifting sands of Siletz Bay. There was no word of her crew. It isn't known if they were lost at sea, killed by Indians or met another fate.

Local Indians said they knew nothing, but Simpson said they were in possession of kegs of nails, zinc sheeting, a calico dress, boots, gaiters and sail cloth. Only some iron and rope rigging remained in the hull when Simpson found it.

There is no known Indian lore. Because of massive tribal relocations by the government in the mid-1800s, it is unlikely that the Siletz Indians living in the region today have many direct ties to those on the coast 150 years ago.

At the behest of Lincoln City on Oregon's central coast a team of scientists, amateur archaeologists all, are hoping to find what's left of the Blanco.

There have been shipwrecks by the hundreds along Oregon's coastline over time, but through elimination of other candidates it is highly likely that the wooden ribs that occasionally tease the curious are those of the Blanco.

A boat builder surveyed what was visible of the wreck in 1951. From what he could determine, the dimensions were roughly those of the Blanco.

The 125-foot Blanco, built as a schooner in Coos Bay in 1859 or 1860 and refitted as a brig, never plundered the Spanish Main and likely had no gold beyond that in the teeth of her crew.

But tourist-conscious Lincoln City would like to put what's left on display if it can be found. It may be quite a project.

A handful of local citizens gathered on a recent Sunday as scientists, taking advantage of unusually low tides, old photos of the wreck and conflicting recollections of people who had seen it over time, tried to get an idea of where the ship's remains lay.

Jon Cole, a professor of engineering and environmental science at Washington's Walla Walla College, said the salt water and sand likely would help preserve the wood.

Whether the ship actually is the Blanco, as they suspect, he said, may have to be determined by radio carbon dating and by other studies of the wood.

The scientists had hoped to use ground-penetrating radar to find where the ship rests, but said the possible area is too large for that. In addition, they said, the salt water and dense sand limit what their technology can do.

The project is a hobby for the scientists, who have worked on long-buried cities, walls and tombs in the Middle East and are volunteering their services. This is their first ship.

"We expect the ribs are close to the surface. Our technology doesn't probe all that deeply," said Gerald Sandness, a geophysicist with Battelle Pacific Northwest Lab in Richland, Wash.

He said to use seismic gear they need a good idea of just where the ship is. They had expected a fairly well-defined area but ended up with acres of possibilities.

"And we only have a few hours to work," he said shortly before the tide started inching its way back into the bay.

Sandy Pfaff of Lincoln City's visitor and convention bureau is seeking other photos of the ribs taken from different angles to help triangulate where the wreck lies.

But the sand-choked shallow bay, which was a working harbor decades ago, changes constantly. Houses on a bluff that are being used as reference points from early photos come and go. Landmark trees grow and fall.

"Because of the salt in the water if we try ground-penetrating radar we're pretty much sunk," said Bradley Matson, a measurements engineer with Photon Kinetics in Beaverton. "We'll evaluate our methods first. We'll see how applicable our techniques are. We don't really know how long it will take even to get within striking distance."

The scientists took global positioning readings for future use and say that so far they aren't sure what technology they will finally use to locate the wreck.

Permission would be needed from the Oregon State Parks Department if they try to raise the Blanco, said Pfaff, since it would be classed as an archaeological project.

It likely would involve a pricey coffer dam to protect the resurrection.

"They didn't need a permit to thump around on the sand because it's not intrusive," she said. "If it becomes intrusive I'm not sure life will be as easy as it has been so far."

"This could be a tough one," Sandness said. "If we go to geophysics we will have to do it at a later date."

Meanwhile, the Blanco snoozes on, among blissful barnacles and contented clams. It has gone as far as it is going to.



Junho 14, 2004

Texas A&M researchers find wreckage of 24 Japanese subs

Associated Press, June 14, 2004, 7:20AM

COLLEGE STATION - Texas A&M University researchers have found the wreckage of a fleet of Japanese submarines that terrorized U.S. ships throughout World War II.

The Navy used explosives to sink the 24 subs in 1946 to prevent the Soviet Union from taking advantage of their technology. The location of the wreckage was classified for nearly six decades. Using now-declassified Navy documents and underwater technology, Texas A&M oceanography professor William Bryant and graduate student Brett Phaneuf found the submarines 60 miles off the coast of Nagasaki.

About three weeks ago they used a robotic vehicle to take pictures of the wreckage, 675 feet underwater. It is among the largest collections of sunken submarines in the world, Bryant said. "It's sort of an underwater museum of Japanese submarines," Phaneuf said.
"It's a time capsule down on the sea floor."

The pair's efforts have been funded by the Discovery Channel, which plans to air a special on the project in the fall.

PS: trabalhámos com os dois, em 1997, na ilha Terceira mas as leis de Murphy impediram-nos de ter quaisquer resultados satisfatórios (por outro lado, os ecos de retorno de 24 submarinos são BEM grandes... :o)



A Arqueonautas e a Universidade de Oxford



Diário de Notícias, 11 de Março de 1997



Junho 13, 2004

Titanic artifacts go on display

CNN, Friday, June 11, 2004 Posted: 1115 GMT (1915 HKT)


LONDON, England (CNN) -- Previously unseen artifacts recovered from the wreckage of the Titanic by a team of explorers are to go on display in Britain.

The objects were recovered during the most recent expedition to the site in 2000, and are going on show at the Museum of Science and Industry in Manchester.

They include a button bearing the White Star Line logo, which belonged to 3rd Officer Henry Pitman. It was discovered with a collection of other buttons and a smoking pipe in a leather bag in the debris field around the Titanic.

Other items on show include a porthole from a third class cabin, an English five pound note, a pair of silk socks, a London Omnibus ticket, perfume bottle labels, and a leather wallet.

The artifacts were unveiled on Friday by Mark Lach, who took part in the dive in 2000. The exhibition -- Titanic: The Artifact Expedition -- opens to the public on June 25 and runs until January 16, 2005.

Lach, designer of the exhibition, told the UK Press Association: "The exhibition and these artifacts bring dignity, honor and respect to this story and those who lost their lives and to those whose lives were changed forever.

"The artifacts are pieces of the Titanic and pieces of people's lives."

He added: "Traveling two-and-a-half miles to the ocean floor and seeing Titanic face-to-face was the adventure of my life.

"While looking at the ship I felt a powerful connection to everyone involved in her construction, sailing, and loss."

A huge section of the ship's hull dominates, and surviving bottles of Champagne and crystal ware, etched with the logo of White Star Line, indicate the opulent lifestyle on board.

Entering the exhibition, visitors will be given a boarding pass with the name of one of the 2,228 passengers. At the end of the exhibition, in the Memorial Gallery, they will find out if the passenger on the boarding card was one of the 705 that survived.

The Titanic sank after hitting an iceberg just before midnight during its maiden voyage on April 14, 1912.



Junho 12, 2004

Um who's who...



... e, como bónus, em contra-luz, a primeira página do CV de um oficial, dos graúdos, da Real Marinha Portuguesa.



Remains of 1929 shipwreck at center of Alaska feud

by Sheila Toomey, Anchorage Daily News, Jun. 10, 2004 01:50 PM


ANCHORAGE, Alaska - Laws of the sea rooted in a thousand years of history are at the heart of a fight in federal court over the remains of a 1929 shipwreck found by divers two years ago off Kodiak.

The divers say underwater salvage laws give their company, Shoreline Adventures, the right to take objects off the wreck of the SS Aleutian, a steamship that delivered goods and people to canneries and sank on May 26, 1929, after hitting a rock in Uyak Bay.

The state says the shipwreck is an underwater site of historic interest and items should only be removed as part of a professional archaeological expedition.

In papers filed with U.S. Magistrate Harry Branson, state historic preservation officer Judith Bittner dismissed the divers as "treasure hunters," a nasty phrase when used by archaeologists. But Steve Lloyd, a partner in Shoreline Adventures and the first diver on the wreck in August 2002, said there is no treasure to hunt. There was no gold or anything else of great value on the Aleutian when it sank, he said.

The ship causing all the ruckus was 375 feet long and 50 feet wide, built in Philadelphia in 1898. A two-masted steamer, it was chugging westward from Seward on a Sunday morning, searching in misty light for a floating cannery, when it struck a submerged rock about a mile south of Amook Island, tearing such a large hole in its hull that it sank in seven minutes, according to newspaper accounts at the time.

Only one of the 116 people aboard died, apparently because he went back to his quarters to retrieve a keepsake. The captain and his chief officer later returned to the area and searched for the wreck but could find only an oil slick.

In testimony and written affidavits, Lloyd said there is nothing historically unique about the Aleutian. It was one of several similar Alaska Steamship Co. ships making routine deliveries at a time when water was the only way to travel between Alaska's remote coastal communities.

Lloyd, co-owner of Title Wave bookstore in Anchorage and author of "SS Farallon," about a 1910 shipwreck, said the draw for divers is the challenge and the mystery, not gold. He and his Shoreline partners say they have spent $110,000 so far locating and diving on the Aleutian, which is down about 200 feet, deeper than most scuba divers are trained to go.

Shoreline wants to recover part of its costs by turning the wreck into a tourist business, a "world-class diving destination," Lloyd said. "A unique wreck adventure for advanced technical divers," according to company ads.

The idea is that experienced, trained divers looking for a challenge - a deep, dark, silty, Alaska dive - will pay to visit the Aleutian and be allowed to take a souvenir in return for helping to photograph, collect and document all items removed from the wreck.

Assistant Attorney General John Baker said during a court hearing last month that the state might not object to Shoreline taking divers down to the Aleutian. But removal of artifacts without a state permit and an approved professional archaeological plan cannot be allowed, he said.

The state is concerned that if Shoreline is allowed to proceed, "within 10 years the Aleutian will be stripped," Baker said in a written motion.

Lloyd testified that the ship has been under water for 75 years, its sides collapsing, its wood rotting away. During that time, the state has never expressed any interest in finding it and has no plans or money to mount an underwater archaeological salvage operation, he said.

"The ship is gradually falling in on itself," Lloyd said.

Soon the smaller objects on the wreck will sink under a mountain of silt and debris and effectively be lost forever, he said.

There are thousands of pieces of steamship crockery still with the ship, Lloyd said, with little value other than as souvenirs.

Shoreline notified the state of its discovery last August when it filed in federal court, as required, for salvage rights to the Aleutian, said Peter Hess, the company's attorney. The state expressed no interest in the matter. So Shoreline began developing its business. The company is booking dives for this summer. It has a Web site and participated in a February trade show in New Jersey, Lloyd said.

In March, with no objections, Branson signed a default judgment in favor of Shoreline. A week later, the state filed a motion to intervene in the case to stop Shoreline.

Baker agreed that the state dropped the ball by not getting into the case earlier. But the state legally owns abandoned ships sunken off its coast and must take action to prevent destruction of the Aleutian, he said.




Junho 11, 2004

Titanic Artifacts Set for Auction Block This Week

by Brian Handwerk, for National Geographic News, June 7, 2004

The ill-fated luxury liner R.M.S. Titanic never made it to New York. But on Thursday the largest ever selection of the ship's artifacts and memorabilia will go on the auction block the city's South Street Seaport Museum, just steps from the New York Titanic memorial.

The event, hosted by New York auction house Guernsey's, will sell items from other famous ocean, such as the Normandie, the Olympic, the Andrea Doria, and the Lusitania. But there can be no doubt of the main attraction.

"It's far and away the biggest assemblage of Titanic material ever to come to sale," said Arlan Ettinger, President of Guernsey's.

The auction's lots range from the quirky to the awe inspiring to the slightly macabre.

Examples include:

• cork life jacket and liner said to have been removed from a doomed passenger (estimated auction sale price: U.S. $30,000 to $40,000);

• a Titanic plaque from lifeboat number 2 (estimated auction sale price: $75,000 to $100,000); and

• a recovered deck chair.

Gary Robinson, one of the event's top consigners, said he has several lots of special interest.

"I think in terms of an almost visceral impact on people when they see it, I'd mention a 19-inch [48-centimeter] section of carved English oak that made up part of the grand staircase," Robinson said.

"When the ship broke in two, that wood shot out onto the ocean. Because it floats, obviously, some was picked up on the body recovery vessel [the Minia]," Robinson said. "Lots of what's called Titanic wreck wood must be looked at with a pound of salt. But this hand-carved pattern identifies it to that particular area on the ship."

Also on the block is a one-of-a-kind souvenir pin that was sold in Titanic's barbershop. "There were no gift shops onboard in those days," Robinson said. "This one was purchased by a crew member who put it on his jacket and eventually went into a lifeboat. When he returned to Southampton he gave it to the port superintendent as a gift. That fellow's descendents brought it to auction in England."

Bidders can also choose from five original menus (no more than 25 are believed to exist); collectible White Star Line china; rare photographs; signatures and documents; marconigrams (messanges transmitted by radiotelegraphy); original artwork; and even costumes and props from Titanic, the 1997 Hollywood blockbuster directed by James Cameron.

Illegal Salvage Not for Sale

The R.M.S. Titanic sank on April 15, 1912, after striking an iceberg during her maiden voyage from Southampton, England, to New York City. More than 1,500 people drowned with the ship, and the tragedy has reverberated through the years in the form of countless films and books.

National Geographic Explorer-in-Residence Robert Ballard was the first to locate the resting place of the legendary vessel in 1985. Ballard found the ship off the Grand Banks of Newfoundland beneath 12,000 feet (3,657 meters) of water.

Ballard has long argued that shipwrecks should be left undisturbed to preserve history for future generations. (The explorer is currently revisiting the Titanic to document the wreck's destruction.) But since Titanic's discovery, subsequent expeditions have salvaged over 6,000 artifacts from the wreck. Various tour companies have visited the site, and there have even been reports of private submarines landing on the sunken ship's deck.

Consigners and Guernsey's officials say salvaged items are off-limits from Thursday's auction.

"Salvaged artifacts … are not legal for collectors to own and certainly not legal to sell," Robinson said.

"We own things that were on the ship and taken off before the voyage, or taken off by survivors or even on victims' bodies," he said. "There are some personal effects that were taken off by morticians and embalmers in Halifax and put in numbered bags and sent back to families."

Collectors are said to have acquired many of their best pieces by locating families of the survivors and victims of the disaster. Rich Romano, a Titanic artifact and memorabilia collector from Secaucus, New Jersey, is one of the auction's three main consigners. Romano said he began his collection by gathering the autographs of survivors and victims as a hobby. "I've been doing this, for Titanic and other liners, for about 18 years," Romano said, noting interest in Titanic has waxed and waned during that time.

"I've seen the quiet times, and obviously the movie brought everything back to the forefront," he said. "In the 1980s and 1990s a lot of the survivors jumped on the bandwagon and signed postcards at conventions and so on."

But interest in the luxury liner in recent years has pushed prices for memorabilia and artifacts steadily upward. The family sources that have supplied the collectibles market once helped Edward S. Kamuda, president and founder of the Titanic Historical Society, create the society's museum in Indian Orchard, Massachusetts.

"Most of the stuff that we have in our collection was donated by survivors," Kamuda said. "It started when a survivor died and all of his things ended up in the city dump because he had no family and there was no interest in the 1960s. We thought we'd create a museum where [memorabilia] could be preserved for future generations."

But Kamuda said surging interest in the legendary liner has been a mixed blessing for his organization. Titanic buzz has promoted the society's growth. But it has also made it difficult for the museum to add its collection.

"People used to donate material to our society. But now that they can get a good price, you don't see that much any more," Kamuda said. "That's sad because some of these things will go into a collector's safe and not be seen publicly for years."

Kamuda believes that many auction buyers will be motivated less by interest in the events of April 1912 than those of April 2012.

"Many people are buying these things and looking to the hundredth anniversary … to make a profit," Kamuda said. "Some are speculators rather than Titanic enthusiasts."

Guernsey president Ettinger says that while more exciting items do carry large price tags, many enthusiasts who want a part of the Titanic story will be able to find something.

"It's really for all strata, it's not just an elitist thing," he said. "There are items that might be over a hundred thousand dollars, but many others that are only worth hundreds."

Romano, the New Jersey collector, says he believes the auction will help enhance the infamous ship's legacy. "It gives [enthusiasts] a chance to see or to own some of those items and to continue the Titanic's story. It really has no end."



A construção naval portuguesa

Os navios de alto bordo portugueses foram uma autêntica revolução tecnológica, surgida durante as viagens exploratórias do século XV, incentivando o aparecimento ou crescimento de indústrias suas subsidiárias, tais como os têxteis de linho, os estaleiros das enxárcias e a siderurgia metalúrgica. Lisboa, base de toda a construção náutica lusitana, constituiu um pólo dinamizador destas indústrias no território nacional, sendo igualmente um sorvedouro de homens e matérias-primas, destinadas a construir as ferramentas que abriram de par em par as portas do Império Português de Quinhentos

A mão-de-obra

No caso português, e reportando-nos ao século XVI, toda a mão-de-obra da Ribeira das Naus de Lisboa estava subordinada ao controlo de um Mestre Carpinteiro e de um Mestre Calafate, ambos oficiais dos Armazéns da Guiné e India, cargos vitalícios que só por morte do detentor davam lugar à nomeaçãi de um novo mestre para a Ribeira, com os processos de nomeação a serem tratados directamente pela Chancelaria Régia.

Os mestres da Ribeira recebiam um vencimento anual de 30.000 reais, auferindo 2.000 reais extra por cada navio lançado ao mar. Aos mestres carpinteiros cabia a manutenção da disciplina de trabalho, o zelo pelos materiais fornecidos pelo almoxarife da Ribeira, e a incumbência de informar o Provedor dos Armazéns do andamento das obras. Controlavam ainda cerca de 150 outros mestres carpinteiros, menos qualificados, que eram temporariamente contratados pela Coroa.

Só se era considerado apto a entrar para a Corporação da classe quando se fosse examinado pelos oficiais da Ribeira. Esta distinção conferia ao detentor o usufruto de vários privilégios – atribuidos por D. João II, em 1492 - e alguns deveres, tais como o de trabalhar, em regime de total disponibilidade, nas obras de encomenda régia, embora pudessem trabalhar fora do estaleiro real, quer em empreitadas quer em regime de assalariados.

As madeiras

As madeiras destinadas ao liame – quilha e cavernas – provinham essencialmente do sobreiro. Para o costado das naus, os teóricos recomendavam o pinho manso, madeira bem resistente à acção das águas tropicais em que o Império Português se alicerçava. Ao contrário do que acontecia nos países da Europa setentrional, o carvalho não era muito recomendado pelos tratadistas portugueses do século XVI, já que a madeira daquela árvore era humida, e muito sujeita a ser atacada de busano.

Era pois ao sobreiro que competia o papel de destaque na construção naval portuguesa do século XVI, sendo a sua madeira propriedade da Coroa e o seu corte, para fins não náuticos, terminantemente proibido.

O sobreiro originava as peças de maior complexidade já que as suas torturas e garfos afeyçoados para as voltas das cavernas e curvas e agulhas para as quaes se acham nos sovereyros ramos de tal geyto que servem inteyros sem ajuntamento de pedaços o que faz muito jeyto para a fortaleza do navio.

Mais tarde, a construção de grandes naus implicou a importação de madeiras vindas do estrangeiro, sobretudo as que se destinavam à construção dos mastros, já que só o pinho e o carvalho nórdicos possuíam as caracteristicas ideais para a feitura do seu núcleo.

Apesar das desvantagens apontadas ao carvalho pelos teóricos contemporâneos, esta madeira acabou por ser utilizada em frequente quantidade na construção de naus portuguesas, para o que era utilizado o carvalho da Flandres ou, então, “da terra”. Gdansk, na Polónia, foi outro ponto de importação de madeiras de carvalho, de onde também provinha pez e alcatrão, para a calafetagem dos navios portugueses.

Com o incremento da navegação, a madeira rapidamente escasseou, mesmo apesar da adopção, por parte da Coroa Portuguesa, de medidas mitigatórias que levassem ao crescimento sustentado da floresta lusitana. Os problemas derivados da falta de madeira começaram a ser sentidos em meados do século XVI, já que não era só a contrução naval a requerer cada vez mais àrvores sacrificadas. Entre os grandes culpados encontravam-se os fornos de cal e de cozer pão, os de tijolo, os de loiça, de pasteis, de biscoito, os de vidro e, especialmente, os de refinação de açucar, sem se entrar em linha de conta com a lenha gasta em actividades domésticas, em cada lar.

A necessidade proteger os recursos florestais tornou-se tão premente que o poder régio determinou o afastamento dos fornos de açucar para fora do perímetro da cidade de Lisboa. Depois dos fornos de açucar, chegou a vez dos fornos de vidro e chegou-se mesmo a proibir a venda de pinhões e pinhas, de modo a que as sementes pudessem ter tempo de cumprir a sua função.

É esta escassez que leva aos naufrágios de finais do século XVI, que se sucederam em catadupa e que mais não reflectem do que uma indústria sem matéria-prima, que cada vez mais se socorre de madeiras novas, ainda verdes, nada ideais para uma estanquicidade ideal do casco.

A calafetagem

De modo a garantir essa estanquicidade, os calafates da Ribeira recorriam a todo um conjunto de técnicas, o que visava garantir que uma nau, em viagens de ano e meio, se mantivesse a flutuar sem que houvessem importantes infiltrações de água.

Foi por essa razão que os mestres da Ribeira foram de opinião de que as naus flamengas ou alemãs não deveriam de ser compradas para serem integradas na armada da Índia, já que esses navios eram pregados com cavilha de pao e mal encurvadas e calafetados com hum so fio de estopa. De acordo com a sua experiência, essas naus, assim que se aventuravam a fazer viagens de longo curso, vinham sempre a Lisboa, no regresso, para irem a monte, tal a agua que metem.

A calafetagem do casco era feita com estopa, breu e alcatrão, recorrendo-se ainda ao chumbo, aplicado na costura das naus. Para além destes materiais, recorria-se ainda à galagala, uma pasta feita de cal virgem e estopa, amassadas com água e que era aplicada no exterior dos cascos como protecção contra os vermes xilófagos (a mistura de galagala e de calafate deu origem aos famosos navios negros dos portugueses que tanto espantaram os japoneses, que os retrataram nos seus biombos “nambam”).

De acordo com o Padre Fernando Oliveira, o breu era originário da Alemanha, donde era extraído dos pinheiros, árvores resinosas por excelência. As árvores eram incineradas em fornos; ao resíduo resinoso era adicionado vinagre, tornando-o sólido, mais apto a ser facilmente exportado. Era esta pasta que, quando aplicada, tornava o navio escuro, ou “korufune”, tal como os japoneses chamavam aos navios portugueses (quando os contratos de construção contemplavam a calafetagem do navio, o armador requeria que os trabalhos decorressem até o navio ficar “negro posto na água").

O breu chegava a Lisboa vindo das feitorias de Antuérpia ou da Biscaia, em Espanha. Cada nau da Carreira da Índia requeria cerca de 26.000 quilos de breu, que servia para vedar as juntas do tabuado das querenas, dos costados e dos pavimentos, a fim de evitar a penetração de água no interior da embarcação.

As ferramentas mais utilizadas pelos mestres calafates eram o maceto, que servia para bater nos diversos ferros; os carcanelos, que eram ferros de 1, 2 e 3 gornes, utilizados para encalcar a estopa; um ferro estreito, para resguardar as cabeças das cavilhas e apalpar as cabeças dos pregos, a fim de verificar se estavam em bom estado; um ferro de cortar, utilizado no corte do canto de cima das tábuas para abrir as costuras; um maújo, para tirar as estopas das costuras e um desencalcador ou puxavante, para o mesmo fim.

O calafate da quilha, da roda de proa e do cadaste utilizava um número superior de estopas do que as empregadas no costado, sendo mesmo utilizadas precintas de lona - sobre as quais se sobrepunham outras de chumbo – pregadas à madeira por tachas de bomba. Nas madeiras de encher, calafetavam-se as suas juntas interiores e encalcava-se a estopa até meia profundidade, depois do que eram preenchidas por galagala, numa operação feita antes do assentamento do forro interior e das escoas.

Ainda de acordo com Fernando Oliveira, uma boa calafetagem só era garantida pela presença de uma boa fibra de estopa já que só esta absorvia bem o sebo, inchando com a água, não servindo para tal efeito a lã ou o algodão. Esta estopa, quer a lavrada quer a em fio, era também ela originária do exterior, provindo da Andaluzia, da região de Catalayud. Para além desta estopa nova, os Armazéns da Ribeira abasteciam-se ainda da estopa reciclada da enxárcia velha dos navios que regressavam de viagem, e que era - depois de recebida pelo almoxarife dos Armazéns - desfiada pelas estopeiras, cujo número rondava as 40 mulheres, que ganhavam cerca de 35 reais por dia. Tal prática de reciclagem foi posteriormente abandonada já que a estopa resultante era considerada de fraca qualidade.

Pregos e enxárcias

Mais uma vez, era a região da Biscaia que fornecia os pregos de telhado, que serviam para a ligação das diferentes peças de madeira das naus e estopares, que serviam para a inserção e ligação da estopa, sendo grande a sua fama, no que tocava à sua qualidade metalúrgica.

Outra das razões que levavam à importação da pregadura biscaínha era a de que, por qualidade superior, se obtinha um preço inferior ao do conseguido pelo produto nacional. Tal facto era tanto mais importante já que a pregadura representava uma parte significativa dos custos de construção de uma nau e não era comum, na tradição portuguesa da construção naval, a utilização de cavilhas de madeira para a união das peças de madeira.

O linho - que servia para a feitura das cordas e dos cabos utilizados no aparelho das naus – era originário da região de Santarém e da Golegã, onde era fiado por cordoeiros e vendido a Lisboa para a confecção de enxárcia. Esta enxárcia era mesmo exportada para os estaleiros navais da Índia, já que a fibra de coco local, o cairo, não era adequada para esse fim. O linho poderia vir também, em menor quantidade, da região do Mondego ou de Torre de Moncorvo.

A produção de linho era da maior importância para a indústria naval nacional, levando a que as quantidades de linho que cada lavrador poderia fornecer, fossem fixadas antes da colheita, ficando assim obrigados a dar á Coroa toda a produção acordada. Depois de colhido o linho, os lavradores forneciam-no ao contratador régio, que o pagava ao preço acordado.

Do contratador, o linho passava para os cordoeiros de “obra delgada” – fiadores que trabalhavam todos os tipos de fio em linho, com não menos de doze fios - e daí passava para os Armazéns dos estaleiros navais. Em Lisboa, este fio trabalhado era depois acabado numa cordoaria especializada, numa última fase de transformação em enxárcia, havendo o concurso dos cordoeiros de “obra grossa” – que fabricavam toda a espécie de enxárcia, tais como cabos, guindaresas, estais, driças e ostagas.

Por vezes, apesar de Portugal ser auto-suficiente em linho, havia necessidade de se importarem pontualmente enxárcias do estrangeiro, nomeadamente da Flandres, de Génova ou de Sevilha.

As velas

Fundamentais para a obtenção da força motriz da embarcação, as velas consistiam fundamentalmente em pedaços de lona cosida e relingada por fio de Brabante – nome curioso que ainda hoje serve para designar, no Brasil, aquilo a que chamamos “cordel”, num arcaísmo interessante, especialmente pela carga náutica que carrega.

O pano para as velas provinha, na sua maioria, de Vila do Conde, denominando-se “pano de treu”, e era medido em varas, medida de aproximadamente 83 cm. O restante pano utilizado para a confecção de velas, era de origem francesa e denominava-se por lonas de “vitre”s ou “pondavis", sendo medido em peças. Estas lonas diferenciavam-se do pano de treu pela trama e por outras características técnicas que faziam com que o pano de Vila do Conde fosse o mais apropriado para velame de navios latinos e o de origem gaulesa fosse destinado às velas do papafigo, do traquete e da moneta do mastro grande, de navios de pano redondo, carregando uma nau de 550 toneladas cerca de 3000 metros de velame.

As lonas “vitres” eram importadas da cidade de Vitré, enquanto que as lonas “pondavis” provinham da cidade de Pouldavid, na Finisterra, ambas na região da Bretanha. Em Portugal, para além de Vila do Conde, existiam ainda outros importantes centros produtores de velame, entre os quais se contavam Lamego, Gestaçô e Amarante. Destes centros, o pano partia para Lisboa onde era utilizado na confecção das velas propriamente ditas, graças à obra de um mestre, coadjuvado por quatro ajudantes e oito mulheres, para o que utilizavam agulhas e fio de coser, relingar ou palombar.

Para saber mais:

CASTANHEIRA, E., 1991, Manual de construção do navio de madeira, Dinalivro, Lisboa

COSTA, L., 1997, Naus e galeões na Ribeira de Lisboa – a construção naval no século XVI para a Rota do Cabo, Patrimonia Historica, Cascais

LAVANHA, J., 1996, Livro Primeiro da Architectura Naval, Academia de Marinha, Lisboa

PALACIO, D. G., 1944, Instrucción nautica para el buen uso de regimiento de las naos, su traza, conforme la altura de Mexico (1587), ed. fac-simile, Madrid

OLIVEIRA, M., 1989, Livro de traças de carpintaria com todos os modelos e medidas para se fazerem toda a navegaçao, assi de alto bordo como de remo traçado, Academia de Marinha, Lisboa

RITA, A. & PINHEIRO, A., 1990, Os Portugueses e o Mar nos mais Antigos Documentos, Subsídios para a História Económica de Portugal, edição do Banco Pinto e Sotto Mayor, Lisboa

SOTO, J., 1988, Los barcos españoles del siglo XVI y la Gran Armada de 1588, Editorial San Martin, Madrid




Arqueologia vs. caça ao tesouro

O património cultural subaquático não pode, nem deve, ser tratado e abordado de acordo com a tradição e princípios dos salvados marítimos e da caça ao tesouro, devendo, pelo contrário, ser objecto de tratamento diverso, próprio e específico. A caça ao tesouro é uma actividade que teve origem na tradição milenar do resgate de salvados marítimos, prática cuja lenda e o mito de sonho de riqueza e aventura consagraram.

A caça ao tesouro não tem qualquer afinidade com a Arqueologia, apesar de nos tempos modernos se tentar disfarçar de respeitabilidade social (através da acção de grupos de pressão e tráfico de influências nos meios da cultura, jornalismo, política, forças armadas e organismos estatais) e de respeitabilidade científica (através da invocação de pressupostos históricos e arqueológicos como objectivos prioritários das suas explorações e recorrendo à contratação de arqueólogos para camuflagem das suas reais intenções).

A caça ao tesouro tem, pois, como principal objectivo a rentabilidade financeira e o lucro, lógica incompatível e inconciliável com puros critérios científicos. Na verdade, a investigação cientifica tem tempos de trabalho próprios, que são incompatíveis com a necessidade de rentabilização financeira da exploração, através da perda do mínimo de tempo possível com actividades não lucrativas.

Por outro lado, na caça ao tesouro só interessa recolher os bens possuidores de valor venal, não se podendo perder tempo com o estudo e a conservação do património cultural que não seja lucrativo financeiramente - até porque, os interesses comerciais e os investimentos económicos efectuados nestas actividades são de montante elevadíssimo e ... "tempo é dinheiro".

Aliás, não é por acaso que, em Portugal , aos caçadores de tesouros apenas interessaram trabalhos que incidissem sobre bens datados dos séculos XV a XVIII, época em que naufragaram ao longo da costa portuguesa e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira numerosas embarcações com cargas valiosíssimas do ponto de vista venal. Tendo em conta esta lógica estritamente lucrativa, na caça ao tesouro tudo aquilo que não possuísse valor venal era pura e simplesmente destruído ou ignorado na busca ávida e cega dos valiosos tesouros.

Como afirmava o Arquitecto Octávio Lixa Felgueiras "o caçador de tesouros só está interessado na recuperação da parte valiosa dos espólios. Um navio é um mau negócio; tecidos, madeiras, pequenos objectos de uso corrente, a quem interessa a sua conservação?".

Actualmente a arqueologia subaquática consagra universalmente os seguintes princípios:

* De que merece ser estudado tudo o que contribua para o avanço dos conhecimentos e cujo encargo seja proporcional à sua importância cientifica e se harmonize com o que mereça ser objecto de salvamento;

* De que merece ser objecto de salvamento tudo o que possa suspeitar-se ou verificar-se importante para o conhecimento e que com risco de se perder;

* De que merece ser promovido tudo aquilo que traga quaisquer benefícios do ponto de vista do interesse público e cujo encargo não se representa negativamente sobre qualquer das precedentes linhas de actuação.




El enésimo espejismo de la Atlántida

ABC, 11 Junio 2004

Por ANA SORIA

«En aquella época, se podía atravesar aquel océano -habla del Atlántico-dado que había una isla delante de la desembocadura que vosotros llamáis columnas de Heracles -hoy, estrecho de Gibraltar-. Esta isla era mayor que Libia y Asia juntas y de ella los de entonces podían pasar a las otras islas y de las islas a toda la tierra firme que se encontraba frente a ellas y rodeaba el océano auténtico». Así aparece por primera vez mencionada en los Diálogos de Timeo y Critias, escritos por Platón hacia el 350 a. C., la isla de la Atlántida; uno de los grandes mitos de la civilización occidental sobre cuya existencia real, desde entonces y hasta nuestros días, no se ha dejado de especular.

La última teoría la ha formulado, tal y como publicó ABC el pasado martes, un equipo de científicos de la Universidad alemana de Wuppertal. Éstos, a través de la BBC, difundieron unas fotografías tomadas vía satélite, en las que aseguraban que se podían identificar los restos de la mítica Atlántida en las marismas de Hinojos, cerca del Parque Nacional de Doñana (Huelva). «Las fotos tienen poco detalle, no se pueden analizar», asegura sin embargo el catedrático de Arqueología de la Universidad de Sevilla, Ramón Corzo, y añade: «lo único que está claro es que corresponden a una zona de Doñana de formación geológica reciente, donde no es verosímil que se pueda transparentar nada cubierto porque es una zona de depósito, de dunas móviles».

El experto de la Hispalense echa así por tierra el enésimo espejismo de la Atlántida, esta vez descrito por «personas que no se dedican a la investigación arqueológica, que vienen de otras disciplinas y que no tienen antecedentes que avalen sus investigaciones».

Según el mito contado por Platón, la civilización de la Atlántida, cegada por su propio poder y esplendor, llegó a desafiar a los dioses, quienes la destruyeron en tan sólo un día enviando un cataclismo, en torno al año 9.500 a.C. Para Aristóteles, no se trataba más que de una parábola con la que su maestro quería transmitir una de sus enseñanzas. Sin embargo, como ocurriera con la Troya narrada por Homero en su Ilíada, la posibilidad de que la leyenda de la Atlántida contuviese un fondo de realidad histórica ha traído en jaque desde el s.XIX a científicos y paracientíficos de todo el planeta.

«La isla divina que estaba entonces bajo el Sol, producía todas estas cosas -flores y frutos- bellas y admirables y en una cantidad ilimitada. Como recibían todas estas cosas de la tierra, construyeron los templos, los palacios reales, los puertos, los astilleros, y todo el resto de la región».

En opinión de Corzo, «lo que cuenta Platón es una forma de construir una ciudad perfecta por parte de los hombres de una época remota. No describe una realidad que él hubiera conocido. En el realto subyacen las noticias, más o menos fantasiosas, que llegaron a Grecia sobre una civilización de alto nivel cultural que habitó Andalucía entre los siglos XII y IV a. C.».

Los pocos datos que se tienen sobre la ubicación de esta civilización ideal son tan escasos que han llevado a buscarla por todo el Mediterráneo e incluso más allá, puesto que hay quienes sostienen que en realidad se trataba del continente Americano antes de que separase definitivamente de Europa y África.



Junho 10, 2004

Ilha de Moçambique

Artigo no jornal "O País", edição nº 79, 5 de Junho de 2004, via Ma-Schamba

(...)

Jacinto Veloso, presidente do Conselho de Administração da Património Internacional, empresa que está associada à Arqueonautas Worldwide no projecto de investigação, divulgou o seguinte esclarecimento que transcrevemos:

O "Mediafax" com o número 2039 de 28.05.04 publicou um artigo com o título "Património Arqueológico Nacional Exportado ilegalmente". Sobre o seu conteúdo gostaria de tecer as seguintes considerações:

1. As peças arqueológicas foram legalmente exportadas por aprovação do Conselho de Ministros no quador do contrato que é referido no citado artigo do Mediafax: a Lei 10/88 dá esta competência ao Conselho de Ministros (...).

2. O projecto arqueológico realizado pela Arqueonautas e pelo Património Internacional Sarl (sociedade maioritariamente estatal, sem fins lucrativos) não é de "Caça ao Tesouro" ; é sim um projecto que respeita rigorosamente o prescrito na lei, no seu Art. 14, isto é, realizou-se segundo as normas científicas e obedecendo a princípios internacionais aplicáveis; me parece assim que as opiniões que contrariam a de Teixeira Duarte são as mais correctas;

3. Declara o arqueólogo moçambicano que "foi a primeira vez que objectos de Monumento do Património Cultural da Humanidade foram vendidos em hasta pública...". É verdade. Mas tudo legal, Até agora todos os objectos de monumentos do Património Cultural levados e/ou vendidos no estrangeiro saíram ilegalmente do país, foram literalmente pilhados e as estações arqueológicas correspondentes destruídas. Foram muitas e muitas! Será que o arqueólogo e a UNESCO não se deveriam preocupar mais com a pilhagem dos bens culturais e com a melhor forma de a proteger?

4. Mais grave ainda é a atitude da UNESCO que "inventou" uma Convenção de Protecção do Património Cultural Subaquático que apenas protege os países ricos e aqueles que dizem ter sido no passado os proprietários das cargas afundadas: algumas delas roubadas e que são hoje consideradas património cultural; ao mesmo tempo, a dita convenção prejudica os países do terceiro mundo que são legalmente e pela lei geral os legítimos proprietários das cargas afundadas nas suas águas territoriais e também os donos actuais dos destroços dos navios que as transportavam.

5. Sabiam os leitores do "Mediafax" que até hoje nenhum país ratificou a mencionada Convenção da UNESCO, aprovada em 2001?

6. Terão os leitores do "Mediafax" sido informados que no processo da Convenção da UNESCO, a 4 de Novembro de 2001, se abstiveram ou votaram contra os seguintes países: Noruega, Rússia, Turquia, Venezuela, Brasil, Alemanha, Grécia, Guiné-Bissau, Islândia, Israel, Holanda, Paraguai, Suécia, Suíça, Reino Unido e Paraguai?

7. Conhecerão a existência de países que são favoráveis, ainda que sob certas condições, à comercialização de bens do património cultural subaquático? São eles entre outros: Cuba, Indonésia, Filipinas, Reino Unido, EUA, Cabo-Verde, Colômbia, Uruguai, Vietname, Bahamas, Malásia, Seychelles, Maurícias, China, Madagascar, Barbados, República Dominicana e outros do Caribe."



Junho 09, 2004

Empresa da Madeira leiloa achados


Diário de Noticias (Madeira), Sábado, 22 de Maio de 2004

por Miguel Fernandes Luís, com Lusa


A empresa Arqueonautas World Wide Arqueologia Sub-Aquática, SA, registada na Zona Franca da Madeira e que é presidida pelo alemão Nikolaus Sandizell, vendeu, quarta-feira passada, em leilão na Holanda algumas das antiguidades recuperadas de um navio afundado no século XVI, ao largo da Ilha de Moçambique, considerado pela UNESCO património mundial.

O leilão rendeu 100 mil euros por uma série de discos de ouro e um lote de 13 taças Ming, uma das mais importantes dinastias da China antiga, que se encontravam entre os destroços da embarcação portuguesa afundada.

O Governo moçambicano considerou ontem em Maputo este negócio «perfeitamente regular». «A venda de determinados exemplares desse conjunto do património arqueológico é perfeitamente normal, pois as peças negociadas fazem parte das que podem ser comercializadas», afirmou o vice-ministro da Cultura de Moçambique, Luís Covane. Esta opinião não é partilhada pela comunidade de arqueólogos, que invoca a convenção para a Protecção do Património Cultural Sub-Aquático, para pôr em causa a regularidade do leilão de quarta-feira.




Entretanto, em 1996...

Divers, archaeologists seek gold off cape Verde

By David Brough, LISBON, March 22, 1996 (Reuters)

An international team of divers and marine archaeologists has embarked on a dangerous quest to haul gold, silver and artefacts from dozens of shipwrecks in the swirling currents around the West African Cape Verde islands.

One member of the team, British diver David Baxter, lost his life when powerful currents dashed him against rocks during a routine search off Sao Nicolau island this month. But the Portuguese wreck search company Arqueonautas will continue its search for valuable cargo from 35 ships dating from before the 20th century and 23 modern wrecks lost in storms and fog off the treacherous Cape Verde coast.

The Dromadaire, a French East India trader shipwrecked in bad weather in 1762, is expected to turn out to be the prize haul. The ship is believed to carry a cargo of gold and silver worth at least $6.8 million, say Nikolaus Graf Sandizell, head of Arqueonautas.

"We are very optimistic about the Dromadaire," he told Reuters. "It was lost in a crevice, just off the coast of Sao Vicente island, so its cargo is in small area."

A 61-year-old retired British navy commander John Grattan, who directs operations for Arqueonautas, discovered the Dromadaire using a system whereby a line of up to 10 divers search for a wreck by diving parallel to the shore.

Historians later identified the ship from the recovered objects. Divers found 20 iron cannons at the wreck site and a French gold coin with a picture of King Louis XV, minted in 1760. The ship was carrying 154 people when it was engulfed by rough seas. Only 77 survived, according to historical records.

Arqueonautas is aware of the location of two other East India trading vessels off Cape Verde, Sandizell said. They are believed to carry gold and silver cargo estimated to be worth at least $6.1 million.

Last August Arqueonautas signed an exclusive three-year concession contract with the Cape Verde government to seek underwater treasures around the coastline and will share the revenue 50-50 with the state after deducting expenses.

Gold, silver and other artefacts the divers expect to find, ranging from brass cannons to jewellery and Chinese porcelain, will be sold off by auction or offered to museums, Sandizell said. Arqueonautas' team of 26 divers and archaeologists began searching for wrecks last November and will carry out an archaeological survey this spring. The next step will be for the divers to recover booty - with minimum damage to the environment.

"We are a serious operation. We're not cowboys, " Sandizell said. "We'll even recover wrecks if we think there is nothing of great commercial value on board as long as we believe we will find objects that have historical and cultural value."

Museums may be interested to buy seemingly worthless objects such as an eighteenth century sailor's shoe, he added.

Arqueonautas' team includes renowned British archaeologist Margaret Rule, who led the recovery of the English King Henry VIII's sunken flagship the Mary Rose in Britain in 1982.

Sandizell said he expected divers and archaeologists to start recovering underwater treasures in June.

"So far we have recovered some coins and porcelain objects for identification purposes," he said. "But at the moment we are just doing initial non-destructive survey along the coastline."

He said it was hard to estimate the total value of the Dromadaire's haul because auction house results cannot be predicted accurately. The value of the haul could exceed initial estimates if the passengers were carrying valuable private possessions not included in the ship's records, Sandizell said. Rare coins can boost the value of the haul. In some cases, a single coin could be worth $20.000 to $30.000, he said.

Based on historical research, more than 70 shipwrecks from the sixteenth to the nineteenth centuries are known to have sunk off Cape Verde, a former Portuguese colony. Experience shows that for every wreck mentioned in the archives, three to four more additional wrecks could be found.

Cape Verde was an important destination for ships travelling from Europe to the Orient and form South America to Europe as it was a source of fresh water and food and a trading point for slaves, Sandizell said.

"Ships went down in bad weather or sometimes because of bad navigation off Cape Verde," he said. "Sometimes a ship hits rocks off the coast at night when the pilot had no idea it was near land"




Sunken treasure trove fetches twice expected price

Reuters, Thu 20 May, 2004 04:40

By Elisabeth Koch

AMSTERDAM (Reuters) - Rare Ming dynasty Chinese porcelain and gold pieces salvaged from a 16th century Portuguese shipwreck near Mozambique have sold for double the expected amount at an auction in Amsterdam.

Auction house Christie's on Wednesday sold about 125 porcelain objects and 21 gold pieces for 117,289 euros (79,000 pounds), far exceeding expectations.

The treasure was discovered in 2001 at a depth of just a few metres near Fort San Sebastian on the "Ilha de Mocambique", an island just off Mozambique, once the centre for trade during Portugal's Golden Age.

"The Netherlands has a tradition in shipping and ships' cargo. We know how to handle these objects and we have a market for them here," said Yvonne Ploegsma, a spokeswoman for Christie's in Amsterdam.

The porcelain was excavated carefully from the wreck and was in remarkably good condition with very few chips, cracks or missing pieces.

Venezuelan diver Alejandro Selmi was the first to find the wreck when he spotted a pile of ballast stones. Aware that thousands of shipwrecks litter the sea-bed with ballast, Selmi was not initially very enthusiastic.

UNIQUE COLLECTION

The Portuguese carrack, an armed merchant ship, was laden with exotic goods from the East when it sank, leaving unstamped lumps of gold and porcelain just three metres below the surface for centuries.

Crabs, ferns, dragons, lotus flowers and petals decorated the white and blue Ming bowls, as did chrysanthemums, cranes, people riding buffalo, mythical beasts, butterflies, lions, trees and dragonflies.

Those objects with the greatest archaeological, artistic and historical value went to Mozambique, named after the tiny island, giving its national museum a unique collection of export porcelain, Christie's said.

Some plates carried the year of production, 1553, also the likely year of the shipwreck. They were popular with kings and emperors, such as China's Wanli (1573-1619).

Two bronze cannons, a swivel gun and spices were also found in the wreckage, but these items were not included in Wednesday's auction.

In March, Ming porcelain salvaged from a 400-year-old shipwreck off southern Vietnam raised $1.6 million (900,000 pounds) for a new museum in Vietnam when Christie's auctioned nearly 17,000 pieces in Melbourne.





Junho 08, 2004

A ver...

... se amanhã dou resposta a isto aqui, mais abaixo. A ver se tenho tempo. E paciência.



Arqueologia Marítima vs. Caçadores de Tesouros

Ladies and Gentlemen,

Please apologize for this un-solicited email, your kind attention concerning this issue is greatly appreciated.

Recent articles published in the Internet and through the national and international press, make it necessary to clarify Arqueonautas involvement in maritime archaeological projects. Most of the articles were based on information, not always correct, distributed by a small group of Portuguese marine archaeologists. This group is known already for some time in the international academic community for their extreme views.

We believe it only to be faire to "look at both sides of the coin" to better understand the polemic of this issue. Kindly open the attached word document, in either English or Portuguese language, to read our statement.

The scientific publications concerning our work in Cabo Verde and Mozambique are currently being prepared. Please do not hesitate to contact me for any further clarifications required.

Sincerely yours,

Nikolaus Sandizell
CEO / Administrador Delgado


ARQUEONAUTAS S.A.
Representative Office
Av. da Suica, 468
2765-288 Estoril
PORTUGAL

Tel.: +351.21.4663040
Fax: +351.21.4662769

Mob PT: +351.93.4663040
Mob MZ: +258.82.897699
Mob DE: +49.172.1303994

Website: www.arq.de




A História repete-se mais uma vez – a discussão da arqueologia marítima vs. “caçadores de tesouros” faz-nos lembrar a famosa história contada por Luís de Camões acerca do “Velho do Restelo”, quando um pequeno grupo de conservadores/reaccionários, sem qualquer tipo de visão e de conhecimentos, tentou levantar uma polémica no sentido de impedir a Coroa de enviar a sua frota na continuação da epopeia dos descobrimentos. Ignorando a polémica, Portugal tornou-se num dos maiores impérios na história da humanidade! Tão importante lição ... mais de uma vez esquecida – é a de que por vezes temos de assumir pequenos sacrifícios para pudermos atingir grandes objectivos. Ora para realizar um grande objectivo é importante mantermos o olhar na floresta apesar das árvores que nos toldam a vista.

Infelizmente o assunto da arqueologia vs. “caçadores de tesouros” não é tão a preto e branco como nos é feito crer ou como nos possa parecer à primeira vista. Para compreender tão complexa matéria , é necessário analizar:

1. Formas de protecção da herança maritíma;
2. Diferenças de objectivos dos grupos envolvidos;
3. Causas reais de preocupação.

1. Como proteger a herança marítima cultural

A capacidade de protecção da herança marítima nacional depende exclusivamente das capacidades da nação para controlar as suas águas territoriais. Infelizmente, países industrializados e do terceiro mundo são em termos económicos, ainda mundos á parte e, por vezes, substimamos os problemas que muitos dos países em desenvolvimento têm para assegurar, as necessidades básicas como alimentação, saúde e educação para a sua população. A protecção da herança cultural marítima destes países torna-se consequentemente uma segunda prioridade, somente uma de muitas áreas a necessitar de atenção. A maioria destes despreveligiados países, não se conseguem proteger como os “países industrializados” o fazem, os quais têm meios económicos para operar uma marinha, uma guarda costeira ou polícia marítima. A herança marítima cultural destas nações é por isso uma preza fácil para caçadores de tesouros, pescadores sem instrução, mergulhadores desportivos desonestos e sem educação e, ocasionalmente, burocratas corruptos que facilitam a venda ilegal de artefactos recuperados.

O conceito teórico da Unesco, presente na sua recente “Convenção da Herança Cultural Subaquática” promovendo a protecção dos naufrágios “in situ” (registar a localização do naufrágio mas deixando o local intacto), poderia funcionar em tempo limitado, se medidas de segurança apropriadas, fossem tomadas. Contudo, mesmo nos países desenvolvidos, alguns deles não podem controlar e proteger as suas vastas costas e águas territoriais, a protecção dos seus naufrágios “in-situ” não passa de um “wishful thinking”, com muitos destes locais quer registados quer não registados, a ser destroçados e destruídos a uma velocidade alarmante. E que podem estes países fazer sem peritos arqueológicos, sem fundos apropriados, sem meios para proteger a sua herança marítima?

a. Fechar os olhos e perder a sua herança cultural marítima para “caçadores de tesouros”;
b. Ter esperança de que, talvez um dia, alguma instituição, ONG ou um patrocinador que apareçam e desenvolvam um programa arqueológico que permita o controle a longo termo pela nação ribeirinha;
c. Tomar uma atitude que lhes permita adiantarem-se a “caçadores de tesouros” e salvarem a sua herança marítima com a ajuda de grupos privados de arqueologia marítima, antes que os seus mais importantes naufrágios sejam pilhados, destruídos e perdidos para sempre. Apesar da alternativa b. ser a solução perfeita ela é infelizmente irrealista.

O tempo de execução de um projecto é da maior importância, pelo que concessões institucionais podem ajudar no desenvolvimento de um projecto específico, mas não suportarão ilimitadamente um projecto de larga escala, o qual é muito difícil de definição prévia e pode demorar décadas a ser correctamente executado. A opção c. é pois, a única solução viável. Um grupo auto sustentado e experiente de arqueologistas marítimos podem treinar especialistas locais, fornecer informações compiladas dos naufrágios, estabelecer prioridades nas decisões de intervenção, e gerar rendimento e, assim, como consequência, a herança marítima cultural da nação obterá a desejada protecção a longo termo.

2. A diferença de objectivos dos grupos envolvidos e a necessidade em definir o que é a arquelogia marítima versus “caçadores de tesouros”

O preto e branco da visão fundamentalista dos “Velhos do Restelo” vê somente dois grupos e define-os como “os bons” e os “maus” Num mundo em que a política tradicional (esquerda e direita) deixou de ser suficiente tivemos de optar pelo meio termo, uma “terceira via”; o equilíbrio entre a consciência social e uma economia saudável.

Se este mesmo compromisso for utilizado na resolução do nosso problema torna-se necessário em primeiro lugar, analizar quem são as partes envolvidas:

- Grupo I – Arqueólogos pagos pelo estado ou patrocinados por instituições estatais (Ex. CNANS ou a Universidade do Texas)
- Grupo II – Arqueólogos não pagos e que trabalham com o único propósito da edição de uma publicação cientifíca (Ex. Margarete Rule ou Mensun Bound)
- Grupo III – Arqueólogos, pagos por uma fundação ou patrocinados de outra forma (Ex. Frank Goddiot)
- Grupo IV – Arqueólogos que trabalham para uma empresa privada, auto sustentada e, cientificamente organizada. (Ex. Arqueonautas S.A.)
- Grupo V – Caçadores de tesouros, portanto ilegais, que trabalham com fins comerciais sem qualquer interesse científico.



A existência destes diferentes grupos leva-nos a reflectir em dois pontos:

a. O financiamento necessário para a condução de um projecto marítimo arqueológico;
b. A capacidade científica para documentar a recuperação de um naufrágio, com a finalidade da sua publicação;

Se a utilização do dinheiro dos contribuintes ou de patrocínios de longo termo não forem uma opção, temos de procurar alternativas comerciais estando atentos à natureza repetitiva das cargas, sejam elas, moedas, porcelanas, armas, objectos comercializáveis ou qualquer outro artefacto. Não existe qualquer dúvida ou discussão de que só é aceitável trabalhar comercialmente com grupos de arqueologia marítima consolidados, e de que todos os achados únicos ou repetidos, classificados por peritos neutrais em arqueologia marítima, como herança cultural marítima permanecam no país para serem expostos em museus nacionais ou para integrarem exposições itinerantes. A venda de objectos repetidos, já representados na herança cultural marítima nacional permite, todavia, o financiamento consequente da protecção da herança marítima nacional – o segundo príncipio juntamente com a recomendação teórica “in-situ” embora contrário à convenção da UNESCO UCH.

Existem alguns conhecidos arqueólogos marítimos independentes com larga experiência, que estão interessados em suportar comercialmente grupos de arqueologistas marítimos, com a condição de que estes grupos:

a – Sejam contractualmente obrigados a que a parte da herança selecionada e a informação científica recolhida permaneça no país onde foi encontrada;
b – Que operem de acordo com uma metodologia arqueológica específica, permitindo a preparação da documentação relativa ao naufrágio em causa, sua localização e os artefactos recuperados.

Os grupos II e IV podem assim trabalhar em conjunto, com melhores resultados para todas as partes envolvidas:

- A nação em causa recuperará a sua herança perdida;
- O grupo privado terá o potencial para pagar aos seus investidores;
- O arqueólogo responsável poderá enriquecer a colecção das suas publicações científicas e aumentar o conhecimento e o lazer do público.


3. As causas reais de preocupação

Para o funcionário público de um país ocidental, empenhado na preservação da herança marítima cultural do seu país e que beneficia de um sistema o qual, através da marinha ou da guarda costeira, permite a protecção da sua herança marítima nacional, é fácil criticar os países mais pobres, os quais vivem uma realidade completamente diferente.

Algumas pessoas oriundas de países de antigos impérios coloniais e que exploraram países do terceiro mundo durante centenas de anos, ainda hoje se arrogam o direito de dizer a estes países como devem conduzir os seus interesses. Pior ainda, algumas destas pessoas estão a tentar com que a herança marítima cultural destes países, a qual pela lei marítima internacional é pertença das nações onde ocorreu o naufrágio, vá para os seus próprios países, reclamando que esses barcos eram barcos de guerra e, consequentemente, sob a soberania da sua bandeira.
Quando acusados muito justamente por estes países, pela sua postura neo-colonialista, reagem sem compreensão e tentam encontrar razões para acusar estes países de estarem errados e que eles “os únicos que são peritos por inteiro” estão certos. Que melhor forma que utilizar o nome da UNESCO e impor uma doutrina em que a única forma correcta é a de (a) a protecção de naufrágios “in-situ” e (b) a proibição da venda de quaisquer objectos recuperados num ambiente marítimo?
Quando da ractificação destas duas regras, essas pessoas estariam então em posição de reclamar a “sua” herança marítima, declarando a outra nação como incapaz na sua protecção – uma vez que estas não jogam de acordo com estas ractificações.

Quando o mundialmente famoso arqueologista George Bass, em 1979, publicou “O homem que roubou as estrelas” ao explicar a triste perda de alguns naufrágios para companhias de salvados, que não tinham qualquer noção acerca da importância histórica e cultural destes naufrágios, que vieram a ser completamente destruídos no processo de recuperação de bens valiosos – ele estava cheio de razão.

Hoje – cerca de um quarto de século mais tarde – uma terceira forma está ela própria a eatabelecer-se, para o benefício da protecção da herança marítima cultural, em países em desenvolvimento. A vida não ficou mais fácil desde então, e por vezes temos de olhar para além do nosso pequeno mundo e tentar arranjar soluções pragmáticas – que tal lembrar “os Velhos do Restelo”!


(de Conde Nikolaus Sandizell, Estoril Junho 2004)



Satellite images 'show Atlantis'



By Paul Rincon , BBC News Online science staff

A scientist says he may have found remains of the lost city of Atlantis. Satellite photos of southern Spain reveal features on the ground appearing to match descriptions made by Greek scholar Plato of the fabled utopia.

Dr Rainer Kuehne thinks the "island" of Atlantis simply referred to a region of the southern Spanish coast destroyed by a flood between 800 BC and 500 BC.

The research has been reported as an ongoing project in the online edition of the journal Antiquity. "We have in the photos concentric rings just as Plato described", said Dr Rainer Kuehne, University of Wuppertal.



Satellite photos of a salt marsh region known as Marisma de Hinojos near the city of Cadiz show two rectangular structures in the mud and parts of concentric rings that may once have surrounded them.
"Plato wrote of an island of five stades (925m) diameter that was surrounded by several circular structures - concentric rings - some consisting of Earth and the others of water. We have in the photos concentric rings just as Plato described," Dr Kuehne told BBC News Online.

Dr Kuehne, of the University of Wuppertal in Germany, believes the rectangular features could be the remains of a "silver" temple devoted to the sea god Poseidon and a "golden" temple devoted to Cleito and Poseidon - all described in Plato's dialogue Critias.

Temples of the sea god

The sizes of the "island" and its rings in the satellite image are slightly larger than those described by Plato. There are two possible explanations for this, says Dr Kuehne.

First, Plato may have underplayed the size of Atlantis. Secondly, the ancient unit of measurement used by Plato - the stade - may have been 20% larger than traditionally assumed.

If the latter is true, one of the rectangular features on the "island" matches almost exactly the dimensions given by Plato for the temple of Poseidon.

The features were originally spotted by Werner Wickboldt, a lecturer and Atlantis enthusiast who studied photographs from across the Mediterranean for signs of the city described by Plato.

"This is the only place that seems to fit [Plato's] description," he told BBC News Online.

Mr Wickboldt added that the Greeks might have confused an Egyptian word referring to a coastline with one meaning "island" during transmission of the Atlantis story.

Commenting on the satellite image showing the two "temples", Tony Wilkinson, an expert in the use of remote sensing in archaeology at the University of Edinburgh, UK, told BBC News Online: "A lot of the problems come with interpretations. I can see something there and I could imagine that one could interpret it in various ways. But you've got several leaps of faith here.

Metal trading

"We use the imagery to recognise certain types of imprint on the ground and then do [in the field] verification on them. Based on what we see on the ground we make an interpretation.

"What we need here is a date range. Otherwise, you're just dealing with morphology. But the [features] are interesting."

The fabled utopia of Atlantis has captured the imagination of scholars for centuries. The earliest known records of this mythical land appear in Plato's dialogues Critias and Timaios.

His depiction of a land of fabulous wealth, advanced civilisation and natural beauty has spurred many adventurers to seek out its location.

One recent theory equates Atlantis with Spartel Island, a mud shoal in the straits of Gibraltar that sank into the sea 11,000 years ago.

Plato described Atlantis as having a "plain". Dr Kuehne said this might be the plain that extends today from Spain's southern coast up to the city of Seville. The high mountains described by the Greek scholar could be the Sierra Morena and Sierra Nevada.

"Plato also wrote that Atlantis is rich in copper and other metals. Copper is found in abundance in the mines of the Sierra Morena," Dr Kuehne explained.

Dr Kuehne noticed that the war between Atlantis and the eastern Mediterranean described in Plato's writings closely resembled attacks on Egypt, Cyprus and the Levant during the 12th Century BC by mysterious raiders known as the Sea People. As a result, he proposes that the Atlanteans and the Sea People were in fact one and the same.

This dating would equate the city and society of Atlantis with either the Iron Age Tartessos culture of southern Spain or another, unknown, Bronze Age culture. A link between Atlantis and Tartessos was first proposed in the early 20th Century.

Dr Kuehne said he hoped to attract interest from archaeologists to excavate the site. But this may be tricky. The features in the satellite photo are located within Spain's Donana national park.


BBC NEWS, 2004/06/06 14:25:43



Junho 07, 2004

Scientist Returns to Survey Titanic Decay

Fri Jun 4, 6:02 PM ET Yahoo

By DIANE SCARPONI, Associated Press Writer

MYSTIC, Conn. - The undersea explorer who found the wreck of the Titanic 19 years ago has returned to the North Atlantic site to find out why the luxury liner is decaying more quickly than expected.

Robert Ballard and other researchers hope their two weeks of surveying and researching will lead to efforts to preserve the Titanic and other wrecks and protect them from looters and thrill-seekers.

In live broadcasts from the federal vessel Ronald H. Brown, researchers said Friday they have noticed that many of the Titanic's structures have collapsed and many items seen years ago are now gone.

It was unclear whether the items — including the ship's bell and an ornate light from the mast — have decomposed, fallen or been stolen.

The half-mile-long debris field between the front and back sections of the severed ship also have been disturbed. In past visits, scientists saw personal items such as shoes, tools, furniture and china on the ocean floor.

Some salvagers have licenses to take items from the Titanic, which is in international waters, while others are taking items illegally.

Some masts and railings have fallen over, and the decks in places have caved in or crumbled, revealing staterooms and other parts of the ship. Now visible is the stateroom of Titanic Capt. Edward Smith, including his bathtub.

The ship sank on April 15, 1912, during its maiden voyage after hitting an iceberg. About 1,500 people died. The ship now rests at the bottom of the sea, 2 1/2 miles down.

Because of the loss of life, some consider the Titanic site to be hallowed ground that should not be disturbed. Others believe that ship parts should be salvaged so people can learn the Titanic's story. Salvaging items also would preserve them from damage under water.

Ballard said the context of a shipwreck artifact is lost when it is removed from the wreck. He said he hopes an international treaty could be drawn up to prevent undersea sites from being looted as Egyptian pyramids and other ancient buildings have been.

"That is a tragic loss to human history. We cannot let that happen in the ocean," he said.

The broadcasts are being fed to the Mystic Aquarium Institute for Exploration, founded by Ballard, and to schools and research centers nationwide. The researchers have surveyed the Titanic four times since they arrived Sunday. One researcher will be studying rust-eating bacteria that are feeding on the ship. The bacteria leave behind clumps of rusty material that Ballard dubbed "rusticles" because they are shaped like icicles.

The Titanic is draped with rusticles, from the hull to the railings, that sway in the ocean currents. Other scientists will create a detailed map and photo survey of the wreck that can be compared with surveys that Ballard did in 1985 and 1986.




Arqueologia em águas turvas

Transcrição do artigo publicado na última edição do "Savana" sobre a problemática do património arqueológico subaquático em águas moçambicanas via Ma-Schamba

por Maura Quatorze e Machado da Graça

Savana, 4 Junho 2004

A 19 de Maio, em Amsterdão, a conhecida empresa Christie's organizou um leilão de porcelanas chinesas, da dinastia Ming, e peças de ouro, retiradas de um navio naufragado em frente da Fortaleza de São Sebastião, na Ilha de Moçambique. Tratou-se de 125 objectos de porcelana e 21 peças de ouro, que renderam no leilão 117.289 Euros.

Calcula-se que o navio, um galeão português, tenha naufragado na segunda metade do século 16. Uma das peças de porcelana continha uma data chinesa que corresponde, no nosso calendário, ao ano de 1553. De acordo com o estilo das peças de porcelana, a maior parte delas pertence à época do imperador chinês Wanli (1573-1619).

Segundo um press release da Chistie's, cerca de 1500 peças de porcelana foram encontradas nos restos do navio, bem como 12 quilos de ouro. Muitos arqueólogos nacionais e estrangeiros condenam este leilão. Se foi ou não legal, de acordo com a lei moçambicana é outra questão em debate. Mas como é que essas peças de porcelana e ouro chegaram a Amsterdão para serem vendidas em leilão?

A sua exportação para fora de Moçambique é um dos aspectos que mais polémica tem levantado tanto a nível nacional, como por especialistas no estrangeiro, que têm acompanhado o processo e muito têm comentado sobre o assunto.

De acordo com o artigo 15 da lei 10/88 - lei de protecção dos bens materiais e imateriais do património cultural moçambicano -, sobre a importação e exportação de bens culturais, "é proibida a exportação de bens classificados do património cultural".

Aquela lei define, no seu artigo 7, que são, com efeito imediato, considerados como bens classificados do património cultural "a) todos os monumentos e elementos arqueológicos; ...". Complementando o anterior, o artigo 10 estabelece que "são considerados propriedade inalienável do Estado os seguintes bens do património cultural conhecidos ou que venham a ser encontrados no território nacional: a) estações e objectos arqueológicos".

Contudo, numa conferência de imprensa realizada na última quarta-feira, a Directora Nacional do Património Cultural, Ângela Kane, defendeu que a lei moçambicana estabelece a existência de objectos arqueológicos alienáveis e inalienáveis, e garantiu que apenas os bens considerados não classificados passaram para as mãos da Arqueonautas.

O fiscalizador nomeado pelo governo para controlar a actividade da Arqueonautas, Leonardo Adamovitz, defendeu na mesma ocasião que todos os bens considerados raros, exclusivos, em bom estado de conservação e, portanto, de grande valor patrimonial, ficaram com o Estado moçambicano.

Para sustentar a tese de que existem bens culturais alienáveis e inalienáveis, Ângela Kane apontou o artigo 18 da lei 10/88, que diz que "o uso ou exploração de bens classificados do património cultural para fins industriais ou comerciais carece de autorização expressa em termos a definir pelo Conselho de Ministros".

É precisamente ao Conselho de Ministros que cabe determinar que objectos considerados como bens patrimoniais inalienáveis podem passar a alienáveis (artigo 7). Contudo, ainda segundo a Directora Nacional, o assunto nunca foi levado àquele organismo.

Ademais, e embora o destino dos objectos fosse o referido leilão, segundo o contrato firmado entre o Governo, a Património Internacional e a Arqueonautas, ao levar as peças encontradas no galeão português para fora de Moçambique, a Arqueonautas tem o direito a isenção de todos os encargos fiscais.

Sobre isto, estabelece o contrato que "o "Contratante" providenciará para que os bens culturais atribuidos ao "Contratado" sejam, no momento da sua exportação, isentos de pagamento de qualquer taxa, direito, emolumento ou imposto, mercê do benefício previsto na Lei de Protecção do Património Cultural (Lei n. 10/88, Artigo 16)".

Ora o referido artigo 16 da lei moçambicana refere a tal isenção "desde que os bens se destinem a ser utilizados para fins culturais, científicos ou, de outro modo de utilidade pública, no âmbito de acordos com Estados, organizações internacionais e entidades públicas e privadas de outros países."

Dificilmente se pode incluir a exportação para venda em leilão entre as várias categorias que o artigo refere.

Mas, afinal, como começou o projecto que culminou com o leilão de 19 de Março?

Em Dezembro de 1997, segundo o jornal METICAL, o Governo acordou o projecto com um "consórcio internacional" com as seguintes empresas: Património Internacional, Genoux Surveys, Maritime Archeological Explorations e Lox Rhodia- Sociedade Portuguesa de Exploração Arqueológica Nautica.

Segundo o mesmo jornal a Património Internacional detinha 50% do consórcio. O montante de despesas previsto era, na época, de 1 milhão de dólares e previam a exploração de cinco zonas: Junto ao rio Rovuma, Junto a Angoche, A Norte da Beira. Junto a Inhambane e a Norte de Inhambane.

Jacinto Veloso, Presidente do Conselho de Administração da Património Internacional, disse ao METICAL que a venda do espólio seria "em certas circunstâncias" para, entre outros objectivos, "repor os fundos investidos" e investir o resto no "património cultural do país" como a Ilha de Moçambique. "Não se prevê que haja lucros" afirmou Veloso. Pressionado pelo jornal a falar sobre a legalidade do empreendimento, Jacinto Veloso respondeu que "se o contrato for ilegal será anulado".

Na opinião de Adamovitz, a assinatura por Moçambique do contrato com a Património Internacional e a Arqueonautas significa que "o governo moçambicano escolheu o mal para não ficar com o pior". Neste caso foi escolher entre o pior "uma anarquia em que não havia nenhuma fiscalização e em que cada um, incluindo muitos piratas, tirava o que queria dos barcos" ou "assinar o contrato com uma empresa, embora às vezes a sua reputação seja duvidosa", disse o arqueólogo. "É melhor ter um ladrão do que cem ladrões", acrescentou.


Actividades decorreram sem fiscalização durante 2 anos

Embora o contrato firmado entre o governo moçambicano e as duas empresas refira claramente a necessidade de que todas as actividades sejam acompanhadas de um trabalho de fiscalização, durante cerca de dois anos a Arqueonautas agiu livremente, sem que o Estado tivesse um fiscalizador que zelasse pelos seus interesses.

As actividades iniciaram, de acordo com dados na posse do SAVANA, no ano 2001. Numa primeira fase, o Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) ficou responsável pela fiscalização mas a sua colaboração não durou muito.

E só em 2003 foi nomeado o arqueólogo Leonardo Adamovitz, representante do Comité ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sitios), em Moçambique, que assumiu o papel de fiscalizador pelo Estado moçambicano.

De acordo com a Directora Nacional do Património Cultural, Ângela Kane, não constitui verdade que a empresa Arqueonautas tenha estado a trabalhar sem fiscalização durante dois anos.

"O Ministério da Cultura nomeou a UEM em 2000. Eles contribuiram numa primeira fase mas depois deixaram de o fazer, e foi aí que recorremos à ICOMOS", disse a responsável numa conferência de imprensa realizada na última quarta-feira.

Contudo, diversos documentos na posse do SAVANA indicam que a Arqueonautas esteve a trabalhar sem qualquer fiscalização durante um período considerável de tempo. Aliás, num encontro de trabalho com a liderança municipal da Ilha de Moçambique, em Junho de 2002 o Ministro da Cultura, Miguel Mkaima, aludiu à falta de fiscalização.

Já em 2003, num relatório do Ministério da Cultura sobre a arqueologia subaquática no país foi classificado de urgente a nomeação de uma equipa de fiscalização para garantir "um controle rigoroso da actividade de pesquisa subaquática", como prevê o contrato de concessão

E, segundo a fonte documental, tanto a Património Internacional como a Arqueonautas já haviam solicitado em mais de uma ocasião que fosse nomeada a tal equipa de fiscalização.

Sobre este assunto diz o contrato que:

"Os encargos financeiros decorrentes do trabalho de fiscalização deste programa serão custeados em partes iguais pela PATRIMÓNIO INTERNACIONAL, SARL, e pela ARQUEONAUTAS WORLDWIDE, ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA S.A., que serão posteriormente reembolsadas quando o "Contratado" vier a usufruir dos prémios e indemnizações previstos no Artigo 20 do presente contrato.

1. Será constituida para este programa uma equipa de fiscalização, que será designada pelo Governo em coordenação com a Universidade Eduardo Mondlane. O responsável da equipa de fiscalização deverá ser de preferência um arqueólogo moçambicano e poderá contratar assessoria especializada sempre que se revele necessário.

2. A equipa de fiscalização deve manter uma presença permanente no local dos trabalhos."

E o artigo prossegue explicando as tarefas dos fiscais.

No entanto, numa adenda do contrato de concessão, assinada de 18 de Junho de 2003, diz, no seu artigo 14, "O Contratado é irresponsável e o projecto em desenvolvimento mantém-se ininterrupto e inalterável se o Contratante ou qualquer entidade com ele relacionada não providenciar a necssária equipa de fiscalização conforme o estipulado no contrato".

Ou seja, este documento autoriza a Arqueonautas a trabalhar sem qualquer fiscalização, o que, de qualquer forma, só passou a poder acontecer a partir da data da sua assinatura.

POLÉMICA

O anúncio de que o consórcio cirado se preparava para retirar do fundo do mar objectos existentes em navios afundados, que seriam apresentados no pavilhão moçambicano da Expo 98, em Portugal, deu lugar a uma grande polémica lançada por alguns arqueólogos nacionais, com destaque para Ricardo Teixeira Duarte, que contestavam os fins e os meios a adoptar pelo referido consórcio, bem como a um protesto da Comissão Científica da participação moçambicana na Expo, que declarou nada ter a ver com tal projecto.

A polémica baseava-se em duas posições opostas: para uns, os bens arqueológicos recuperados eram pertença inalienável do Estado. Para outros era defensável um contrato com empresas privadas que fariam o trabalho de recuperação, dividindo-se os resultados de forma a ser regulada no dito contrato, sendo as empresas livres de venderem a sua parte como forma de obter lucros.

Na altura, ainda segundo o METICAL, o reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Brazão Mazula afirmou que o contrato era "uma aberração" e que dava razão a Ricardo Teixeira Duarte. Igualmente o Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM condenou o projecto considerando-o ilegal e desvantajoso para Moçambique.

O Ministro da Cultura e Juventude na altura, Mateus Katupha, defendeu o contrato dizendo que, como era legalmente obrigatório, este foi elaborado após consulta ao Conselho Nacional do Património Cultural. No entanto o próprio Ministro afirmou, ainda segundo o METICAL, que o parecer foi de que os contratos não deviam ser assinados.

Não obstante, o referido consórcio andou pelas costas do Norte de Moçambique.

O PROCESSO CONTINUA

Após esta polémica deixou de se falar publicamente no assunto e na empresa criada pelo governo moçambicano, nessa altura, para lidar com o projecto, a Património Internacional SARL, com cerca de 80% de capital estatal e o resto na mão de privados.

Isto não quer dizer que as actividades de arqueologia submarina não se tenham iniciado e continuado até hoje desembocando agora no leilão de Amsterdão. A Património Internacional SARL colabora nestes trabalhos com a Arqueonautas Worldwide, Arqueolologia Subaquática S.A., uma empresa criada em 1994. (Ver abaixo: Quem são os Arqueonautas ).

Esta colaboração é feita ao abrigo de um contrato assinado entre o Governo e aquelas duas empresas, a 11 de Novembro de 1999, em que se concede uma área, à volta da Ilha de Moçambique para o desenvolvimento das actividades de arqueologia submarina. Contrato estabelecido por um período de 3 anos e que terá sido, segundo informações em nosso poder, recentemente renovado até 2006.

CURIOSIDADES DO CONTRATO

Um dos aspectos mais curiosos do contrato é o facto de ele ser considerado confidencial. Na realidade, há todo um artigo no articulado sobre a questão do secretismo que deve rodear o projecto. Senão vejamos:

Art. 6 (CONFIDENCIALIDADE)

1. Com o objectivo de assegurar uma verdadeira protecção ao "Contratado" beneficiário da autorização e de preservar o resultado do programa decidido de comum acordo, as partes abaixo assinadas comprometem-se a observar, em relação a terceiros que não fazem parte do presente Contrato, um segredo rigoroso e completo.

2. Serão particularmente guardadas confidenciais todas as indicações, mesmo indirectas, sobre as coordenadas dos lugares onde estariam situados, ou presumivelmente situados, os destroços de navioas afundados e sobre todos os bens culturais encontrados ou apenas presumivelmente encontrados.

3. As partes poderão, no entanto, de comum acordo, divulgar aspectos específicos da realização do programa a um certo nível da sua execução e decidir de medidas adequadas de protecção das zonas de investigação.

Art. 20 (INDEMNIZAÇÕES E PRÉMIOS POR DESCOBERTAS ARQUEOLÓGICAS)

1. o "Contratante" reconhece à sociedade ARQUEONAUTAS WORLDWIDE, ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA S.A. do "Contratado" o direito de receber e tornar-se proprietária de bens culturais cujo valor apreciado representará cinquenta por cento (50%) do valor global do total dos bens culturais encontrados, que só poderá cobrir elementos semelhantes a outros itens descobertos na mesma localização em termos de natureza dos seus materiais, tipo, características, originalidade, história artística e que não sejam considerados de valor excepcional. O "Contratante" reconhece também que a sociedade PATRIMÓNIO INTERNACIONAL, SARL, tem igualmente o direito de receber e tornar-se proprietária de bens culturais cujo valor apreciado representará os restantes 50% (cinquenta por cento) do valor global dos bens encontrados ao qual será posteriormente deduzido o valor dos bens escolhidos pelo "Contratante" e que este seleccionou como sendo parte do "Património Inalienável do Estado".

Neste artigo a expressão "Contratante" refere o Estado Moçambicano e a "Contratado" refere o consócio entre as duas empresas.

UNESCO

Na primeira semana de Maio de 2003 realizou-se em Maputo uma conferência, patrocinada pela UNESCO, com o tema PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL SUBAQUÁTICO. Era objectivo dessa conferência pressionar as autoridades moçambicanas para que fosse ratificada a Convenção da UNESCO, aprovada em Paris, em Novembro de 2001. A Arqueonautas WW esteve representada no encontro pelo seu arqueólogo chefe Alejandro Mirabal.

No entanto Moçambique ainda não o fez, bem como alguns outros países, nomeadamente o Brasil, Cuba e os Estados Unidos.

Um dos aspectos que torna esta questão importante é o facto de a Ilha de Moçambique ter sido considerada, pela UNESCO, Património Mundial da Humanidade, incluindo, logicamente, os materiais arqueológicos que lá se encontram.

Se Moçambique já tivesse ratificado a Convenção da UNESCO a organização das Nações Unidas teria força para agir de forma a impedir a exportação dos achados arqueológicos para fora de Moçambique e a sua comercialização em Amsterdão.

E a posição da UNESCO sobre esta matéria está exposta de forma clara na Convenção. O documento define que "a exploração comercial do património cultural subaquático para comércio ou especulação, ou a sua dispersão de forma irrecuperável é fundamentalmente incompatível com a protecção e a correcta gestão do mesmo. Os bens do património cultural subaquático não devem ser negociados, vendidos, ou comprados como objectos comerciais".

INTERESSES DE OUTROS PAÍSES

Em Outubro de 2003 as duas empresas pediram autorização para a entrada em Portugal e posterior reexportação de parte das peças recuperadas. A intenção era que elas fossem apresentadas a público em exposições, mas o governo português recusou essa entrada, argumentando com a diferença existente entre a legislação portuguesa e a moçambicana sobre esta área. Em carta assinada pela Chefe de Gabinete do Ministro Português da Cultura, Rosário Calvão, destaca-se "o facto de o pedido apresentado pelos requerentes ser equívoco no que respeita à nacionalidade da nau naufragada".

Esta questão da nacionalidade é importante na medida que há quem defenda que os navios e os bens que contêm continuam pertença dos seus anteriores donos seja qual for o local onde naufragaram e o tempo decorrido.

Não é essa, no entanto, a posição das autoridades moçambicanas, que se baseiam na Convenção da UNESCO que, no seu art. 7 afirma que: Os Estados Partes no exercício da sua soberania têm o direito exclusivo de regulamentar e autorizar actividades dirigidas ao património cultural subaquático nas suas águas interiores, nas suas águas arquipelágicas e no seu mar territorial.

Segundo o Dr. Leonardo Adamovitz, responsavel no nosso país do ICOMOS que, no entanto, lamenta a realização do leilão, o dinheiro obtido destina-se à formação de arqueólogos sub-aquáticos moçambicanos, à fundação do Instituto de Arqueologia Subaquática na Ilha de Moçambique e à preparação da exposição permanente da cerâmica chinesa na Ilha. Ele refere que já existe alguma cooperação com a China e alguns portugueses nesse sentido.

Ainda segundo Leonardo Adamovitz, o ICOMOS testemunhou a deposição da documentação e das melhores peças únicas ou colecções completas no Museu da Ilha de Moçambique e tem a certeza de que esta colecção não foi objecto de exportação e nunca será comercializada.

A ver vamos...

Quem é a Arqueonautas?

Segundo Alexandre Monteiro, da Archport, "A Arqueonautas, AS é uma empresa de caça ao tesouro formada em 1994. Tinha como director de operações John Grattan, ex-oficial da Royal Navy e protagonista de vários desacatos e crimes na ilha Terceira, onde operou em 1972. A empresa que tem (ou tinha) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera (ou operou) em Cabo Verde com o beneplácito do Ministro do Mar, depois de ter visto frustrada a sua intenção de proceder a prospecções e recuperações nos mares dos Açores, ao abrigo do revogado dec.lei 289/93.

A sua arqueóloga contratada, Margareth Rule, declarou em público não se responsabilizar pelos trabalhos da empresa, servindo apenas de consultora, não assumindo, portanto, quaisquer responsabilidades caso a administração da empresa não seguisse os seus conselhos.

Existem – ou existiam – algumas pessoas e entidades – como a Fundação Ricardo Espírito Santo e a Faculdade de Letras de Lisboa – associadas a esta empresa. Entre as individualidades referidas contam-se José Hermano Saraiva, consultor cultural da empresa, e Dom Duarte de Bragança, presidente do Conselho de Acompanhamentos da Arqueonautas, AS. Este último, segundo as suas declarações à Agência Lusa aquando da sua estadia no aerquipélago cabo-verdiano, em Julho de 1995, teria usado a sua influência para sensibilizar as autoridades locais para a recuperação de naufrágios históricos, num projecto que custaria milhões de dólares. O gabinete de Dom Duarte admitiu mesmo ao jornal Público que o pretendente ao trono participara na reunião havida entre a Arqueonautas e o governo cabo-verdiano, reunião na qual foi negociada a concessão de exploração de uma zona marítima junto à ilha do Fogo".

Segundo o seu próprio site na Internet, a Arqueonautas foi fundada a 10 de Agosto de 1995, na ilha da Madeira e registada na Conservatória do Registo Comercial da Zona Franca da Madeira. Apresentava, em 2003, um capital totalmente realizado de 3 milhões de Euros. No site da empresa não foi possível detectar nenhum endereço físico, mas em outros sites aparece um endereço no Estoril, perto de Lisboa. Como face representativa da empresa aparece um conde Nikolaus (Nikky) Sandizel, como presidente do conselho executivo. Os outros dois membros desse conselho são o Barão Howard Strouth e o Barão Reinout Sloet to Everlo.

Através de outras informações fica a saber-se que o governo de Cabo Verde terá rescindido o seu contrato com a Arqueonautas por razões que não foi possível conhecer.

Ainda na Internet surge um comunicado da Marinha Americana informando que os objectos leiloados pela Arqueonautas, retirados de um barco de guerra americano naufragado junto a Cabo Verde, são pertença do governo americano e não podem ser comercializados.

O QUE DIZ A LEI

A Lei 10/88 define com clareza, no seu artigo 3, ponto 5 b) que: Elementos arqueológicos (instrumentos líticos, cerâmicas)... são bens culturais móveis.
No seu artigo 7, ponto 2, afirma: "São, com efeito imediato, declarados bens classificados do património cultural: a) Todos os monumentos e elementos arqueológicos; ..."

No seu artigo 10 afirma que: "São considerados propriedade inalienável do Estado os seguintes bens do património cultural, conhecidos ou que venham a ser encontrados no território nacional: a) Estações e objectos arqueológicos ..."

No artigo 15 a mesma lei afirma que: "É proibida a exportação de bens classificados do património cultural".

O artigo 16, no seu ponto 1 afirma que: "Importação ou exportação temporária ou definitiva de bens culturais poderá ser isenta de direitos de importação e exportação desde que os bens se destinem a ser utilizados para fins culturais, científicos ou, de outro modo, de utilidade pública, no âmbito de acordos com Estados, organizações internacionais e entidades públicas e privadas de outros países."

No artigo 24 diz que: "A exportação de bens classificados do património cultural será punida nos termos do art. 21, sem prejuízo da responsabilidade civil ou criminal a que o infractor ficar sujeito."

O Regulamento de Protecção do Património Arqueológico, decreto n. 27/94 define, no seu artigo 2, que: "Património arqueológico é o conjunto de bens móveis e imóveis de valor arqueológico, paleontológico, antropológico ou geológico, relacionados com as gerações antepassadas, encontrados por meio de descobertas fortuitas, prospecções ou escavações arqueológicas, bem como os que venham ainda a ser descobertos ou escavados...".

No seu artigo 7 este regulamento afirma que: "1. Quem descobrir um elemento arqueológico, consoante o valor que se prove que ele tenha sob o ponto de vista artístico, histórico, científico ou de preciosidade dos seus materiais, pode requerer ao Ministro da Cultura e Juventude um prémio que compense o valor do achado. 2. O requerente, sujeito às condições definidas no art. 6 do presente capítulo, pode requerer ao Ministro da Cultura e Juventude que o prémio pela descoberta dos elementos arqueológicos seja substituído pelo direito a se tornar proprietário de parte do espólio recolhido durante a realização de trabalhos arqueológicos. (...) 4. Para os casos previstos nos parágrafos anteriores a alienação é precedida do processo de anulação da classificação dos respectivos bens, ao abrigo do n. 1 do artigo 7 da Lei 10/88, de 22 de Dezembro e podem os mesmos ser exportados temporariamente ou definitivamente ao abrigo da isenção prevista no parágrafo 1 do artigo 16 da Lei n. 10/88, de 22 de Dezembro."

O artigo 18 refere que: "1. A anulação de elementos arqueológicos como bens classificados do património cultural é da competência do Conselho de Ministros. 2. O processo de anulação de elementos arqueológicos como bens classificados do património cultural é realizado através de uma proposta feita pelo depositário e entidades responsáveis pela elaboração dos inventários de elementos e estações arqueológicas, após o que é enviado à DNPC que o submete ao Ministro da Cultura e Juventude. 3. A proposta de anulação da classificação deve referir o insuficiente valor patrimonial do elemento arqueológico, com base na análise e estudos efectuados."

Analisando o presente leilão à luz desta legislação pode concluir-se que a única forma de as peças leiloadas terem saído legalmente do país era mediante a sua prévia desclassificação, pelo Conselho de Ministros, ao abrigo do art. 18 do regulamento.

Terá isso sido feito?

E, se foi, como é que o Conselho de Ministros considerou ter "insuficiente valor patrimonial" uma colecção de 125 peças de cerâmica chinesa da dinastia Ming? Peças que acabaram por ser leiloadas por mais de 100 mil Euros?




Junho 06, 2004

Mais uma boa página para os naufrágios da VOC.



Junho 05, 2004

Estará a Arqueonautas associada à Universidade de Oxford?

"From Bernard Silverman

Dear Dr Montreiro

Mr Mensun Bound is a Senior Research Fellow of St Peter's College,
Oxford. This is an honorary position and has no specific duties. Mr
Bound does not receive any salary or other payment from this College.
Thus Mr Bound does have an affiliation with Oxford University but he
does not "work for" the university.

I hope this clarifies the position. I do not know anything of the
status of Mr Alejandro Mirobal.

With best wishes
Bernard Silverman, Master of St Peter's College."


... parece-me bem que não.



Junho 04, 2004

Caça ao Tesouro em Moçambique

E lá foi leiloado o património da Ilha de Moçambique.

Na minha qualidade de arqueólogo lamento o facto. Lamentam-no igualmente todos os meus colegas arqueólogos Moçambicanos. Lamenta o povo da Ilha, indignado pelos seus tesouros terem ido parar às colecções de meia dúzia de capitalistas diletantes.

Em Novembro de 1997 encontrava-me a trabalhar na Ilha de Moçambique, num projecto financiado pela cooperação Sueca (ASDI), juntamente com um biólogo do Museu de História Natural, o José Rosado, num mergulho, mesmo em frente à fortaleza da ilha, a cerca de 20 m de profundidade encontrámos um conjunto de jarrões enterrados na areia e uma grande âncora, em direcção à superfície pelo declive acima uma profusa quantidade de vestígios arqueológicos misturavam-se com corais e peixes num magnifico espectáculo que se ia proporcionando em direcção à plataforma de coral, mesmo em frente à fortaleza da Ilha, onde repousavam as pedras de lastro e o resto do casco de uma antiga nau portuguesa. Estava descoberto o naufrágio cujo espólio agora foi leiloado pela Christie´s em Amesterdão.

Em Fevereiro de 1998 com a ajuda dos arqueólogos Steve Lubkmen e David Colin do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos iniciei o estudo deste importante naufrágio com grande entusiasmo. Numa primeira campanha de 15 dias fizemos um reconhecimento do local e o levantamento da zona dos jarrões. Os resultados foram apresentados numa conferência no centro cultural Americano em Maputo. Um dos jarrões foi retirado e depositado no museu da Marinha da Ilha de Moçambique. Sobre este assunto foi feito na altura um documentário para a televisão Moçambicana (TVM) pela saudosa jornalista Teresa Sá Nogueira.

Os trabalhos estavam devidamente autorizados por uma licença da Direcção Nacional do Património Cultural. Programávamos um importante projecto de pesquisa da Universidade no local. Mas este entusiasmo foi “sol de pouca duração”: no mesmo ano o Governo assina um contrato de exploração comercial de achados arqueológicos com a empresa Arqueonautas, precisamente para a zona onde estávamos a trabalhar. E assim traçou o destino dos restos da nau portuguesa que durante séculos tinha sido conservada no fundo do mar e cujo espólio foi agora parar às colecções privadas de meia dúzia de ricaços na Europa.

No meio de toda esta tristeza que nem vale a pena discutir, somente deixo um comentário e uma pergunta:

O comentário:

Foi a primeira vez que objectos de um Monumento do Património Cultural da Humanidade foram vendidos em hasta pública !! Isto perante a passividade da UNESCO !! Como é possível?

A pergunta:

Como autoriza o Governo a venda de objectos de uma estação arqueológica quando a lei nº 10/88 de 22 de Dezembro no seu artigo 10 considera “Estações e objectos arqueológicos” propriedade inalienável do Estado ?

A empresa Arqueonautas cometeu assim uma infração flagrante à lei. Qquem vai fazer justiça, quem vai zelar pelo cumprimento da lei neste caso?


Ricardo Teixeira Duarte, arqueólogo moçambicano.



Junho 03, 2004

E agora...

... um grande obrigado ao Maschamba pelo eco dado na defesa do património da Humanidade lá do outro lado do Mundo.



Proposta

Tendo em conta o cada vez mais debilitado orçamento anual proposto para as acções de formação e investigação em arqueologia em Portugal, resultado evidente da dificil conjuntura económica internacional, de que é sintoma, por exemplo, o cancelamento do PNTA para 2004, proponho que os artefactos duplicados, nomeadamente os existentes no chamado "tesouro" do Museu Nacional de Arqueologia, sejam vendidos em hasta pública, em praças internacionais reconhecidas.

Proponho ainda que uma percentagem dos espécimes numismáticos recolhidos em escavações arqueológicas, bem como os duplicados dos mesmos existentes nas colecções e acervos dos museus e instituições nacionais, sofram o mesmo processo de alienação, sendo as verbas arrecadadas destinadas a suprir os custos associados às escavações em curso bem como investidas na formação dos arqueólogos portugueses.



Una vía romana de uso portuario aparece bajo San Fernando

Diario de Sevilla


Las excavaciones arqueológicas de la calle San Fernando han sacado a la luz restos de una calzada de la época romana que, según los expertos Mark Hunt y Florentino Pozo, formaría parte de una pavimentación romana que rodeaba Sevilla y tendría un uso ligado al puerto fluvial. A raíz de este importante hallazgo histórico, en la zona central de la excavación, a 3,5 metros de profundidad, los arqueólogos investigarán y documentarán más a fondo estos elementos del urbanismo romano, así como la arquitectura militar islámica aparecida.

En relación con el tráfico fluvial romano, los especialistas creen posible localizar bajo San Fernando embarcaciones hundidas o estructuras portuarias, por lo que se realizará un control arqueológico de los movimientos de tierra necesarios para construir la estación del Metro en esta zona.

Según el informe de resultados provisionales, al que ha tenido acceso este periódico, desde el 24 de marzo pasado hasta la semana pasada se ha recuperado prácticamente el alzado de la muralla, la barbacana (antemuro) y una de las torres, tres elementos de la fase medieval islámica previstos al inicio de las catas arqueológicas y que se conservarán para darle valor añadido a la estación Puerta de Jerez.

La cara externa de la barbacana sufre una fuerte erosión por las periódicas crecidas del arroyo Tagarete, que corría desde la actual Pasarela y en paralelo a la defensa almohade hasta desembocar en el río, muy cerca de la Torre del Oro. El arroyo existe en la actualidad, pero intubado.

Otro dato de interés es la constatación de que el foso entre la barbacana y la muralla estuvo ocupado por casas con fachadas próximas al Tagarete. Se trata de construcciones de los siglos XVII y XVIII adosadas a la defensa almohade y fuera del ámbito de la fábrica de Tabacos.

Según el informe, las excavaciones en el espacio que ocupará la estación bajo San Fernando se prolongarán hasta principios de 2005, alternando las catas con obras de la propia estación. Hasta ahora y hasta finales de junio, los trabajos se centran en la mitad más próxima al hotel Alfonso XIII y a la Universidad a una profundidad de 3,5 metros tocando el nivel freático. Al término de esta primera fase, la Delegación Provincial de Cultura de la Junta dictaminará los restos de obligada conservación. Luego se construirán los muros-pantalla de la estación para estabilizar los edificios aledaños y aislar el terreno de agua. La segunda fase (de septiembre a octubre) se centrará en la mitad próxima a las viviendas y se alcanzarán los cinco metros de profundidad respecto a la rasante actual.

Un equipo completo de expertos del subsuelo y arqueólogos

El equipo investigador, dirigido por Mark Hunt y coordinado por Florentino Pozo, se compone de seis arqueólogos, un aparejador e investigadores fundamentalmente andaluces de distintas disciplinas para estudiar el subsuelo. La muralla almohade bajo San Fernando sólo se ha excavado en la cara exterior. Tiene una altura conservada de 2,20 metros, una anchura de 2,40 metros y una superficie de tapial erosionada. También se observa el reforzamiento con ladrillo que se efectuó en el siglo XVII para repararla. Una de las torres aparecidas fue tratada, a mitad del XVIII, para integrarla en la cimentación de lo que fue la cárcel de la Fábrica de Tabacos (el edificio exento junto al Alfonso XIII).



Junho 02, 2004

Caça ao Tesouro vs. Arqueologia

Esta polémica da caça ao tesouro vs. arqueologia veio demonstrar pelo menos uma coisa com muita clareza: ninguém no campo dos defensores da caça ao tesouro faz a mais pequena ideia do que fazem os arqueólogos.

E eu acho que a culpa é nossa. Aqui vão algumas diferenças básicas, rapidamente, para os defensores mais inflamados do pragmatismo imaginário dos caçadores de tesouros, os que acham que se não escavarmos todos os navios do mundo na próxima semana, eles vão ser todos pilhados na semana a seguir.

1) o processo de escavação destrói os sítios arqueológicos; por isso os arqueólogos têm de fazer registos rigorosos de tudo o que escavam; os caçadores não perdem tempo com estas coisas;

2) os arqueólogos estudam contextos; os artefactos não têm muito interesse fora do contexto em que foram encontrados; os caçadores recuperam artefactos;

3) os caçadores de tesouros só se interessam por artefactos com valor de mercado; pela própria natureza do objecto social das empresas deles; os caçadores de tesouros têm de pagar os salários com o produto da venda dos artefactos; isto faz com que o objectivo da escavação não possa ser a aquisição paciente, rigorosa e demorada de conhecimentos que é o objectivo da arqueologia;

4) A caça ao tesouro destrói os sítios arqueológicos completamente, ao passo que a experiência dos últimos 50 anos demonstra claramente que a pilhagem destrói superfialmente os sítios;

5) Os navios de um determinado período e de uma determinada cultura são um recurso finito e a sociedade não se devia portar como se fosse dona do mundo; devíamo-nos considerar usufrutuários, e pensar no futuro; que mundo e que queremos deixar aos nossos filhos?

Há muitas mais razoes para que se acabe com a caça ao tesouro debaixo de água, como se acabou com a caça ao tesouro em seco (creio que hoje ilegal em todo o mundo). Mas eu sei que as pessoas não lêem textos compridos, de forma que deixo aqui estas cinco para começar.

Luís Filipe Castro



Seeking the Santa Maria

Discovery

When Christopher Columbus "discovered" America in 1492, he piloted one of history's most storied ships, the Santa Maria.

Yet when the great mariner returned in glory to Spain in 1493, he had left behind his flagship and more than a third of his men.

On Christmas Eve, 1492, the Santa Maria had wrecked on a Caribbean sandbar. The loss of his largest vessel forced Columbus to leave 39 sailors behind with friendly Taino Indians governed by chief Guacanagari in what is now northern Haiti.

Columbus instructed his men to build a fort, explore the area, look for gold and treat the indigenous people with respect. And Columbus kept his promise to return in less than a year. But what he found was the burned remains of a fort, a scorched Taino village and not one of his men alive.

Five centuries later, archaeologists and explorers are seeking the remains of the Santa Maria and the site of Europe's first accidental colony in the Americas, named La Navidad.

And if they find one, they may be led to the other: Columbus's writings put the site of the Santa Maria's demise and the location of the La Navidad fort about 4.2 nautical miles apart. Furthermore, Columbus ordered the stranded men to take planks from the scuttled Santa Maria to help build their fortification. If they followed his order, might evidence of the ship still exist on land?

Historical archaeologist Kathleen Deagan has conducted field excavations in northern Haiti for 25 years, some of the time looking for just such evidence. Already, she believes she has confirmed the location of La Navidad. Among the excavated finds dated to around the time of Columbus: tiny fragments of pigs' teeth and a rat's jaw. Rats and swine were brought to the Americas by Europeans.

"We always like to think of it as the first rat to leave a sinking ship in America," says Deagan, the distinguished research curator of archaeology at the Florida Museum of Natural History, and an adjunct professor of anthropology, history and Latin American studies at the University of Florida.

Meanwhile, explorer Barry Clifford has been looking for the remains of the Santa Maria in the shallow waters off the nearby coast. But could any part of a 15th-century wooden boat have survived more than 500 years in the salty Atlantic? Perhaps the most likely remnants would be rock ballast, which — if found — could be traced to rock sources in Europe.



Hoje o meu dia foi isto

Arquivo Histórico Ultramarino Cx 42, doc 18, 6 de Fevereiro 1817


Protesto

Em Nome de Deos Amen Saibão quantos este Instrumento de traslado em publica forma virem que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos dezessete aos vinte e cinco dias do mez de Janeiro do anno nesta Cidade do Nome de Deos de Macao na China por João Joaquim de Freitas foy entregue a mim Joze Gabriel Mendez, Tabelião publico de Notas por Sua Magestade Fedelisma, que Deos Guarde hum Protesto requerendo me traslade em publica forma o que por mim lhe foy satisfeito, cujo theor he o seguinte =

Protesto que faz João Joaquim de Freitas Capitão Tenente do Departamento de Marinha de Goa, Comandante da Galera que naufragou denominada Correio de Azia Proprietario Jozé Nunes da Silveira, vindo de Lisboa para Macao contra tempos, mar, e vento, fogo, baixos e perigos de costas e erros e Mappas, etcetera.

Em o dia vinte e cinco de Novembro do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil outo centos e dezesseis andando a galera acima ditta a vela, costiando a Costa de Oeste da Nova Hollanda na distancia da ditta sette a oito milhas, tendo o ditto Comandante e mais officiais e Pilotos observado o Sol no dia vinte e quatro Astronomico ao meio dia, ao termo medio das tres latitudes Sul vinte e quatro graos Dezesseis minutos tendo pelas vinte e huma horas perdido de vista a Ilha Barren, cuja foy a primeira terra de que se deo vista pelas dezanove horas e vinte minutos do mesmo dia e desde a hora da observação ate as seis horas da tarde do dia acima ditto apontado o caminho foy desde a Nordeste quarta do Norte [invertida a ordem na cópia] trinta e duas milhas sempre da distancia da Carta seis a oito milhas demorando a ditta hora a Terra mais do Norte da mesma ao Nordeste quarta de Norte, e a mais do Sul, continuando o ditto comandante a navegar ao rumo de Norte quarta de Nordeste athe Norte, vinte e oito milhas athe as dez horas, que dando vista as vigias de Proa, mais officiais, que se achavão sobre a tolda de huma Barreira branca alta na mesma Costa na distancia pouco mais ou menos de outo a nove milhas mandando o dto Commandante immediatamente orçar ao Nornoroeste, tendo sido sempre o vento de Oessudueste athe a Oeste, e continuando com a dita proa athe a meya noite, cinco milhas e meya por hora, não se divizava a Costa; e mandando o ditto Commandante fazer o caminho de Norte quarta de Noroeste athe meya hora depois andando o navio seis mlhas por hora, e desde a ditta hora athe a huma ao Norte as mesmas seis milhas por hora sucedendo a mesma hora pegar fogo na Bitacula, o qual durou por espaço de hum quarto de hora, não podendo governar por a Agulha o caminho determinado pelo Commandante, e logo que se pode governar pela Luz de huma Lanterna ao caminho destinado no espaço de hum quarto de hora se devizou de cima da tolda pelo Escripturario Joze Antonio Pinto e o Contra Mestre Pedro Francisco huma arrebentação por Sotavento da Proa de Estibordo, sem que as vigias que havião a Proa destinadas pelo Commandante dessem fé de tal; e mandando o dito Commandante orçar todo a bolina, quanto lhe dava o vento que era nesse mesmo temo Oeste, e determinando ao mesmo tempo que puzesse a ancora a prompto, pois se achava com as unhas fora de bordo e hum Cabo de vinte braças estendido de popa a proa, e vendo se que continuava a ditta arrebentação pela Proa, e fazendo prompto para virar de bordo, bateo o navio duas culapadas continuando sempre com algum seguimento sem tocar, e querendo virar de bordo athe sentir o Navio e tornando a tomar seguimento fazendo as manobras devidas, assim como arrear todas as velas com felicidade se marcou com amura por este bordo, principiando a ter algum seguimento, sem que se visse arrebentação alguma pela proa tornou a bater e a segunda culapada lhe faltou o Leme; e immediatamente atravessou o Navio ao mar, e adornou sobre o lado de bombordo e se encheo de agua arrebentando [o mar] com tanta força que salvarão o Navio deste bordo Bombordo, e logo se picarão as enxarceas de Estibordo dos mastareos e os cahirão os dittos, pois assim determinou o Commandante para melhor se poder lançar a Lancha ao mar, a fim de nos podermos salvar embarcando todos na ditta, assim ficamos ate ao romper do dia, atracados aos mastros das mesmas não se podendo afastar para o largo pelo motivo das muitas pedras que aparecião fora da agua não se podendo no espaço deste tempo salvar couza alguma mais, que tres barris de bolacha e couza de tres almudes de agua se achão em huma jarra do Comandante a qual estava atracada ao Mastro da Gatta não tendo faltado o ditto mastro se não pelo romã [?] e antes de se largar para o mar observarão todos os tres officiais, que estavamos em distancia da Costa sette a outo milhas e que entre as ditas baixas e a Costa havia Canal, pois como a maré estava vazia não se divizava couza alguma, assim como pedras fora de agua, ou bancos de Areya ou arrebentaçãomais sim pela Popa e Proa, tudo erão cabeças de pedras fora de agua que se estendia ao mar, mais de uma milha, [e pela parte do Noroeste da Popa do Navio estava hum grandecissimo banco de pedras fora de agua que se estendia ao mar mais de uma milha] e pelas vinte e huma horas do mesmo dia trabalharão todos os officiais [e tripulação] para nos safarmos de grande perigo, em que estavamos, de entre os baixo, dando espias ao Gurupés do mesmo, do que por este meio nos salvamos de entre os baixos, gente, Lancha, e Bote a remos, como ja declarei, e navegando ao largo da Costa para o Norte ate o meyo dia, observando-se o Sol todos os tres officiais Pilotos se achou ser a Lattitude vinte e dous graos quarenta e seis minutos ao Sul, ao mesmo tempo se observou [da mesma Lancha e Bote] que se tinha navegado onze a doze milhas ainda se poder divizar a ponta do pedaço de Mastro da Gatta, que pela ditta Navegação esta o dito baixo na Lattitude de vinte e dous graos e cincoenta minutos Sul, com muito pouco differença ao mesmo tempo se avistou huma grande arrebentação ao Noroeste da Agulha com huma piquena Ilha, e varias cabeças de pedra fora da agua na distancia da Lancha nove a dez milhas ao mesmo tempo distancia da Costa seis a sete milhas, de que ficou o Commandante mais officiaes Pilotos na certeza de ser a Ilha de Cloates, e da ditta Costa sahia huma restinga de pedra debaixo de agua com huma grande arrebentação que distava ao Mar para mais de quatro milhas, e a ditta Ilha a situão em todas as cartas na Lattitude Sul vinte e um graus e quarenta e cinco minutos, e Lattitude (sic no original) [Longitude na cópia] de Leste a Londres cento e outo graos 23’’ e a restinga já mencionada demorava a Leste da Agulha e a Ilha a Oeste quarta Noroeste, e passarão a Lancha entre os dous perigos, a meyo Canal, o que se suppoz haver agua sufficiente pr hum grande Navio, e continuando a navegar athe a meia noite com a proa de Nornordeste [NNE], e vento Sudoeste, e as dittas horas ficamos pareando (?) athe o romper do dia, que tornamos a continuar ao Longo da mesma Costa na distancia de cinco a seis milhas, e pelas vinte e tres horas do dia vinte e seis dobramos o Cabo de Noroeste e fomos ao longo da Costa a demandar alguma enseada para assim poder por a Lancha e estado de atravessar a Travessia (?) que ha entre a Costa da Nova Hollanda, e as estreitas, desmanchando o Barco, e com as taboas do mesmo fizerão huma borda falça, e com a metade da Barredoura, que nos servia de Vela, fazer huma trincheira e aportando a Lancha a huma ensiada pelas quatro horas da tarde, emmeditamente se principiou a preparar a Lancha, como acima fica ditto, e neste intervallo de tempo forão alguns marinheiros, e os dous Escripturarios e o Cirurgião pela terra dentro mais de huma legua a fim de verem se podião descobrir agua, ou habitantes, apesar de serem bravos, segundo dizem, mas com tal infelicidade que voltando as dittas pessoas menos dous ao sitio da nossa rezidencia nos derão por noticia que nada encontrarão em [?], mas so sim pegadas de animais brutos, assim como de Leons, Tigres, e Lobos, e muitos rastilhos de Cobras e algumas barracas de barro cubertas de palha e com as portas muito piquenas, e pelas desoito horas do dia vinte e sette se achava a Lancha prompta, e principiamos a embarcar, e pelas vinte horas nos achavamos promptos a partir, para demandar o Estreito de Allay [?], visto ser o lugar mais proximo, e como ate ditta hora não aparecião os dous homens, que faltavão, nos resolvemos a (sic) o mais depressa possivel do ditto lugar antes que nos sucedesse, o que suppuzemos de (sic) outros homens terem sido mortos pelos animaes ou habitantes do Paiz, apezar que ao romper do dia forão algumas pessoas pela terra dentro a gritarem sem poderem encontrar os ditos, nem signaes delles, e pelas dittas horas acima mencionadas içamos a vela, e largamos o ditto lugar com vento Sueste fresco, e proa de Norte, e tendo navegado tanto avante como a meia hora de tempo por Milagre de Deos e de Nossa Senhora demos vista de huma Gallera e immediatamente arribamos pra a ditta pois seguia o mesmo caminho que nos, amarrando hum Lençol em hum dos Remos, como quem pedia socorro, e pelas vinte e huma horas e meya o ditto navio ferrou os sobrejoanetes e varias velas miudas, e pelas vinte e duas horas carregou a vela grande acima e ferrou os joanetes e pouco depois ferrou as dittas e baixou toda a bolina e orçou para a Lancha tudo quanto lhe dava o vento e pelas vinte e tres e meia horas chegamos a bordo da ditta Gallera, que içou bandeira Americana, vinda de Filadelfia denominada Caledonia, Capitão João Robarce (?) primeiro Sobre Carga William Chalance (?) segundo Sobre Carga Robert Willys onde fomos recebidos com muitas caridades a bordo do mesmo Navio, officiaes e Tripulação, amarrando a mesma Lancha pela sua popa a fim de quando chegassemos defronte de Timor nos largar na ditta Lancha defronte do Estabelecimento Portuguez, mas Deos Nosso Senhor que nos tinha livrado de tantos perigos athe a ditta hora continuou a favorecernos levando no dia vinte outo pelas quinze horas a Lancha para o fundo e desfeita em pedaços, talvez para nos livrar de morrermos todos em Timor; e o ditto Capitão indagando com o Commandante por ser unico que fallava Inglez na prezença dos mais officiaes o facto acontecido do naufragio, declarando lhe o ditto Commandante e mostrando-lhe huma das Cartas do mesmo Capitão, elle lhe disse que havia cinco ou seis annos tinha naufragado no mesmo baixo huma Gallera Americana, [que vinha] de Boston, denominada Râpi (?), e hia para Cantão, e elle mesmo ditto Capitão em o anno de mil outo centos e quinze a dous de Outubro vindo de Filadelfia para Cantão na mesma Gallera Caledonia tendo observado a altura do Sol achava de Lattitude Sul vinte e quatro graos e navegando na distancia da Costa da Nova Hollanda outo dez milhas ao caminho do Norte quarta e meia Nordeste vinte e duas milhas e ao Norte quarta de Nordeste dezoito milhas, athe as quinze horas e trinta minutos dera vista de huma malha branca na Costa, demorando-lhe ao Nordeste [NE], e continuando pouco mais ou menos caminho mandara hum marinheiro acima da verga do traquete, cujo deo vista de huma arrebentação do Mar desde Norte quarta de Nordeste athe Nordeste quarta de Norte pouco mais ou menos huma milha em distancia do Navio, elle ditto Capitão mandou orçar com a proa de Noroeste quarta de Oeste NO ¼ O, com o vento do Sueste a Sul, e navegando dezasseis milhas e ao Noroeste meio Norte quatro dittos athe as dezassette horas e meya que se achou na distancia de seis a sette leguas, demorando de Terra que se via a mais do Norte ao Nordeste, e a mais do Sul Sueste, mostrando nos as Suas Cartas, em nenhuma dellas existia semelhante baixo, e por observaçoens de distancias e por dous Cronometros, e a lattitude observada ao meio dia achou que o ditto baixo estava na Lattitude Sul de vinte e dous graos, e cincoenta minutos, e que todas as Cartas em geral fazião a Costa da Nova Hollanda mais a Norte quarenta minutos do que na realidade está, e mais Oeste tres graos vinte e cinco minutos pelo Meridiano de Londres, e que elle ditto Capitão em huma de suas Cartas para onde nesta prezente Viagem, que dirigia assim rumo para Cantão tinha situado a ditta Costa verdadeiramente segundo lhe mostrava as suas observaçoens de Lattitudes e Longitudes por Cronometros levando as suas derrotas traçadas por cima da terra que esta situada nas Cartas.

Eu escrivão por ordem do Commandante o escrevy e sobrescrevy em o dia vinte e sette mez e era supra em que me assignei, e reconheci, signaes e firmas a bordo da mesma Gallera = Alexandre Ribeiro da Silva terceiro piloto e Escrivão = João Joaquim de Freitas Capitão Tenente e Comandante = António Joaquim da Silva segundo Piloto = Sebastião Jozé Ferreira Sobrecarga = Frei Jozé de Epifania Capellão = Vallentim Ignacio Roza Limpo, Cirurgião = Antonio Joze Pinto Escripturario = Bento Joze Pereira Bastos Escripturario = Pedro Francisco = Ignacio Dias Barboza = João de Freitas, Guardião = seguem se os assinados dos Marinheiros